Três décadas sem sair do tom

A banda Lyra Mojimiriana completa 30 anos de fundação em 2015, tornando-se referência tanto no ensino musical quanto como agente cultural da cidade, promovendo eventos que são sucessos de público e crítica. (Foto: Divulgação)

Primeiro ato: A orquestra subversiva

Em agosto de 1985, o maestro Carlinhos Lima e outros 13 músicos se reuniram nas dependências do Tiro de Guerra (TG) de Mogi Mirim. A reunião inevitavelmente remete à origem das bandas de música no Brasil, que nasceram justamente dentro de divisões militares ainda no século XIX, por intermédio da Família Real.
Sem majestade, mas com o objetivo de formar uma orquestra, a reunião no TG marcou o começo da Banda Lyra Mojimiriana. Obviamente, em uma cidade que sequer possuía divisão de cultura na Administração Municipal, o caminho não seria nada fácil.

Carlinhos Lima fundou a Lyra com o sonho de dar à Mogi uma orquestra de música (Arquivo/A COMARCA)

A Lyra nasceu com DNA subversivo. Através de seu maestro, teve participação em todas as ações promovidas em prol da Cultura em Mogi Mirim. O maior exemplo é a ocupação do prédio que hoje abriga o Centro Cultural, em 1987, um protesto que reivindicava um espaço para as Artes na cidade.
“Nós, sem violência, conseguimos um resultado fantástico”, lembra o maestro Lima. A Prefeitura não só inaugurou o Centro Cultural como criou um departamento municipal voltado para a área. Havia um sentimento de melhorar não só Mogi Mirim, mas também o Brasil.

A Lyra surgiu com a Nova República e a redemocratização do país, no apagar das luzes da Ditadura Militar. Não por acaso, uma das primeiras músicas organizadas pela orquestra foi “Estão Voltando as Flores”, o hino de esperança do compositor Paulo Soledade.

Subversivos eram também os arranjos do maestro Carlos Lima, considerados pela imprensa dos anos 1980 como “criativos e pouco convencionais”. Fazendo da Praça Rui Barbosa o seu palco, a Lyra se apresentava com músicas de Zequinha de Abreu, Milton Nascimento, Beatles e outros nomes consagrados da música brasileira e internacional.

Arranjos do maestro Lima eram considerados "criativos e pouco convencionais" (Foto: Divulgação)

Já em 1988, uma notícia publicada por A COMARCA já comprovava o sucesso da banda: “A Lyra Mojimiriana vem de experiências bem sucedidas no cenário estadual, despontando como um conjunto virtuoso, seguro nas apresentações e executando um repertório contemporâneo, fazendo sobressair o tom arrojado dos arranjos do maestro Lima”.

Eterno insatisfeito, o exigente maestro Lima aos poucos foi tornando a Lyra cada vez mais profissional, com músicos mais preparados. A intenção era uma só. Dar a Mogi Mirim uma orquestra de qualidade.

Segundo ato: A educação que transforma


Já consolidada, a Lyra Mojimiriana passou a formar músicos com um trabalho de excelência. “Já há mais de dez anos a Lyra consegue fazer um trabalho melhor que qualquer conservatório”, avalia o maestro Lima, que sabe o valor do estudo e da disciplina. Afinal, são décadas de experiência em conservatórios, faculdades e pós-graduações.

“Não dá para formar um músico em menos de dez anos”, garante Lima. E esse é um dos diferenciais da banda. A Lyra não tem pressa. “Nunca cortamos por um atalho”, resume o maestro. Além disso, a instituição não aceita em seus quadros profissionais ninguém que não tenha experiência em música. “Abrir mão do conhecimento é a grande armadilha da geração atual”.

A instituição atende a aproximadamente 850 alunos, sendo 350 em escolas municipais (Foto: Divulgação)

Hoje, a Lyra atende a aproximadamente 850 alunos, sendo 350 deles nas escolas municipais. Além da Orquestra Sinfônica, o carro chefe do grupo, existem ainda a orquestra infantil, o grupo de cordas, o grupo seresta e o coral infantil.

Tanto esforço ganha reconhecimento. Os projetos inscritos pela Lyra em parceria com a Prefeitura foram selecionados entre 1.947 de todo Brasil no Prêmio Itaú-Unicef, que nesta edição tem como tema “Educação Integral: Aprendizagem que Transforma”. Agora, a escola de Mogi Mirim está entre os 160 semifinalistas selecionados.

Terceiro ato: A cultura profissional


Nos últimos sete anos, a Lyra vem se dedicando a uma gestão profissional a fim de fomentar a Cultura em Mogi Mirim. Um dos resultados é o Festival de Inverno (Festimm) que nos últimos dois anos trouxe à cidade os artistas Zeca Baleiro e Zizi Possi.

“A nossa busca jamais foi por dinheiro, então nunca pensei que pudesse criar essa estrutura”, afirma Lima. A Lyra cresceu tanto a ponto de sua própria diretoria ter que se especializar em gestão e administração. Apenas assim a instituição pode continuar crescendo.

“Hoje nós somos a primeira da região a ter uma empresa de auditoria de renome internacional”, destaca o maestro, enaltecendo a transparência da Lyra. Essa transparência tem um objetivo certo: atrair mais investidores privados, uma vez que a banda quer depender cada vez menos do Poder Público.

O próximo passo? A orquestra profissional do primeiro emprego, mais um passo da Lyra rumo à profissionalização definitiva e que servirá de incentivo para que os próprios músicos se aprimorem. A receita para os bem sucedidos 30 anos da Lyra é dada pelo maestro Carlos Lima: “A Lyra sempre foi pioneira, não tem medo de ousar”.

Confira trecho de "Maria, Maria" executado pela Orquestra Sinfônica Lyra Mojimiriana no concerto que comemorou os 30 anos de fundação do grupo:

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Por Flávio Magalhães

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