Sorveteria do Genário anuncia encerramento das atividades

O empresário Carlos Botelho, proprietário da tradicional Sorveteria do Genário, anunciou no começo desta semana por intermédio de um artigo publicado nas redes sociais que, a partir do feriado de Corpus Christi, 26, o estabelecimento comercial fundado por seus avós, que funciona há 93 anos, deixará de funcionar.

Em entrevista ao jornal A COMARCA, Botelho elencou uma série de fatos que o conduziram a adotar esta decisão radical. Ele mencionou a queda do movimento por causa do aumento do número de estabelecimentos do gênero, o aumento constante dos custos de produção (energia elétrica, insumos e mão de obra) e a crise econômica, como alguns dos itens que o motivaram a fechar o estabelecimento.

A reação, segundo ele, foi imediata. “Em questão de poucas horas a notícia de que a sorveteria fecharia teve dezenas de compartilhamentos de pessoas lamentando”, contou. Ele fez a postagem às 16h da última terça-feira, 17. Ainda conforme revelou, nas horas que se seguiram ao anúncio, o movimento na sorveteria praticamente dobrou. “Em um período de baixas temperaturas e até com chuva, foi espantoso ter que correr atrás de produtos para aumentar produção”.

Botelho disse que não pretende fazer nenhum tipo de despedida. “Não cogito nada neste sentido”. A sorveteria estará aberta, segundo ele, até às 23h de quarta-feira.Ele disse que vai alugar o imóvel.

HISTÓRIA
Com o fechamento da sorveteria, derrete-se um pedaço da história de Mogi Mirim. Foi o imigrante espanhol José Maria Botelho que abriu o estabelecimento em 1923. O neto conta que ele escolheu primeiramente um imóvel no alto da Rua Paissandu. Mais tarde foi para a Praça Rui Barbosa, primeiro onde funcionou o Unibanco e depois no local onde permanece até hoje. Segundo relato de Carlos Botelho, a fixação da sorveteria no local coincidiu com a construção da Igreja São José.

Em meados da década de 1940, seu pai Genário Botelho, um dos nove filhos que o casal José Maria e dona Jacintha Cortez tiveram ,foi seduzido pelo pai para que tocasse a sorveteria. “De uma forma ou de outra, todos os filhos tiveram algum tipo de vínculo com a sorveteria. Evidentemente que alguns tiveram outros planos e foi meu pai quem decidiu tocar o estabelecimento”, revelou. Já casado com Eunice Valeriano Botelho, Genário viria a se constituir num dos nomes mais queridos e populares de toda Mogi Mirim durante décadas. Ele faleceu em 2001, aos 81 anos, e sua esposa viria a falecer dez anos depois, aos 87.

O sorvete do Genário, como ficou sendo conhecido, seguia a receita original do pai. Feito somente com ingredientes naturais, fez fama até no exterior. No início dos anos 1970, quando era embaixador do Brasil em Lisboa, o ex-Ministro da Justiça Luiz Antonio da Gama e Silva (o pai do AI-5) chegou solicitar, por intermédio de familiares, o envio de uma remessa dos sorvetes. O ex-craque do Mogi Mirim, do Palmeiras, Deportivo La Coruña, Barcelona e seleção brasileira, Rivaldo Borba, se tornou freguês de carteirinha desde a primeira vez que pôs os pés em Mogi Mirim, a partir de 1991. Rivaldo tornou-se propagador do sorvete sabor de queijo, seu favorito.

REPERCUSSÃO
O médico Raji Rezek Ajub falou com tristeza do fechamento da sorveteria. “Faz parte da história desta cidade, se tornou um ícone”, comentou. Ele disse que a frequência ocorreu desde sua infância. A família Ajub sempre residiu perto da sorveteria. “Até recentemente ainda mantinha o hábito de pagar a conta mensalmente. Meus filhos cresceram apreciando os sorvetes do Genário”, exultou.

Outra vizinha e frequentadora foi a atual vereadora Maria Helena Schudeller de Barros. “A sorveteria do Genário evoca em mim lembranças agradáveis de minha infância e de minha adolescência. Lamento muito que chegue ao fim”, disse. Maria Helena acredita que aquilo que classificou como “estado de abandono do principal cartão postal da cidade” também contribuiu para apressar a decisão do proprietário.

Esta opinião também foi compartilhada pelo atual presidente da Associação Comercial e Industrial (ACIMM) Sidney Coser. Segundo ele a área central da cidade vem sofrendo um processo de degradação que já vem de muitos anos, sem que as autoridades competentes tomem uma providência. “Até entendo que motivações econômicas tenham sido preponderantes para uma decisão tão radical do proprietário. Agora, se a Praça Rui Barbosa e arredores não tivessem na penúria em que se encontram, acredito que a situação poderia ser outra”. Coser afirmou enxergar no rastro de manifestações lamentando a decisão de Carlos Botelho uma certa dose de hipocrisia. “Muita gente que se manifesta lamentando o fechamento, provavelmente nunca nem entrou na sorveteria”, disparou.

José Antonio Scomparin, presidente do Sindicato do Comércio Varejista de Mogi Mirim (Sicovamm) atribui o fechamento “a mudanças inevitáveis”. Disse lamentar profundamente o fato, acrescentando que a cidade perde uma referência. “A vida toda eu e meus familiares frequentamos a sorveteria. Tinha até aquela necessidade de em se recepcionando alguém especial de fora da cidade, levar para conhecer a sorveteria”, acrescentou.


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