A senhora A COMARCA

“Eu nasci ouvindo os barulhos das máquinas d’A COMARCA”, afirma dona Maria Conceição Piccolomini de Azevedo, 90 anos. Os sons das linotipos e das impressoras do parque gráfico do jornal mogimiriano eram tão familiares quanto as notas do piano que a matriarca aprendeu a tocar há mais de oito décadas.

A história da regente do Coral São José se confunde com a do mais longevo veículo de comunicação da cidade. Não é para menos. Dona Maria é filha de Francisco Piccolomini, esposa de Arthur de Azevedo e mãe de Ricardo Piccolomini Azevedo. Dos 116 anos de circulação de A COMARCA, 90 foram sob o comando desses três jornalistas.

Dona Maria é testemunha de boa parte dos altos e baixos que A COMARCA passou com o transcorrer do século XX. Um exemplo foi quando as tropas federais do presidente Getúlio Vargas invadiram Mogi Mirim para conter os soldados paulistas que pretendiam tomar o Palácio do Catete. A Revolução Constitucionalista de 1932 deixou profundas marcas no município e em sua população.

“Era bomba pela cidade inteira, muito soldado pela cidade inteira”, relembra a matriarca de cabelos brancos, com impressionante lucidez. A COMARCA trouxe diversas informações das trincheiras, mas a situação ficou insustentável quando a cidade foi invadida, após intensa batalha no Morro do Gravi, em Itapira. Francisco Piccolomini e a família fugiram para Conchal e, posteriormente, Piracicaba, onde ficaram por 40 dias até a guerra terminar.

Após dois meses de inatividade, A COMARCA retornou a circular e a rotina retomada aos poucos. Apesar de muito culto e respeitado em sua época, Piccolomini não era homem de riquezas. Levou uma vida simples com a família. “Mas muito feliz”, faz questão de ressaltar dona Maria, que juntamente com a irmã, estudava no Colégio Imaculada quando criança.

A Matriarca junto ao piano, outra paixão assumida

Francisco Cardona, fundador de A COMARCA, também fez parte da infância da matriarca. Maria e a irmã Dhiná levavam todos os dias para o velho jornalista a comida feita por Dona Leonor, esposa de Piccolomini e mãe das meninas. “Seu Cardona era uma figura inteligentíssima e muita bondosa. Cativava as pessoas. Mas era político, brigava muito”, lembra.

Cardona entrou para a história como o consolidador da imprensa mogimiriana e foi o responsável por dar ao jornal A COMARCA o tom crítico contra os governos e autoridades, sempre em defesa dos interesses da população. Após 26 anos, transferiu o periódico para seus três pupilos: Francisco Piccolomini, Orlando Pacini e Emílio José Pacini.

Apesar dos sons das máquinas de A COMARCA serem familiares à dona Maria desde seu nascimento, foi o som do piano que a conquistou. “Eu queria estudar Música, nunca puxei esse lado d’A Comarca”, comenta. Em 1942, o pai a presenteou com um piano que até hoje em sua casa. Ainda jovem, foi estudar em Campinas e se formou professora de Música em São Paulo. Trabalhou em Ibitinga e Bragança Paulista, mas fez carreira em Mogi Mirim, onde lecionou por três décadas no colégio “Monsenhor Nora”.

Dona Maria com o saudoso esposo Arthur, dois nomes que se entrelaçam com a História de A COMARCA

Recém-aposentada, em 1976 enfrentou um grande desafio. Fazer de A COMARCA novamente o maior veículo de comunicação de Mogi Mirim. “Amava o jornal, mas não sabia como ele era”, relembra. Mesmo assim, dominou a administração do periódico como dominava as partituras. Orgulhoso, Arthur de Azevedo costumava dizer a todos que a esposa era a responsável pelo sucesso de A COMARCA. “Peguei uma época difícil, trabalhei muito, mas me orgulho disso”, destaca a matriarca do centenário.

Nenhum comentário:

Leave a Reply

Scroll to top