‘Quem tem saudade do governo Stupp não tem afinidade comigo’

Entrevista concedida a Flávio Magalhães

O prefeito Carlos Nelson Bueno (PSDB) estava despachando de sua sala, no Gabinete da Avenida Pedro Botesi, quando recebeu a reportagem de A COMARCA para a primeira entrevista desta seção, que estreia hoje e semanalmente entrevistará personalidades de Mogi Mirim.

Acompanhado de seu secretário de Relações Institucionais, José Roberto Amorim, o chefe do Executivo comentou assuntos que estão em evidência recentemente, como a fiscalização do comércio ambulante, e enalteceu sua relação com o Poder Legislativo.


A COMARCA: Com seis meses de governo, o senhor provavelmente já tomou conhecimento do panorama geral do município. A situação da Prefeitura é tão grave quanto se pensava na época das eleições?
Carlos Nelson Bueno: Muito mais. Eu tinha uma visão pessimista, mas não imaginava o tamanho dos desmandos. Há coisas que eu imaginava que nem fosse possível de serem feitas. Como confissão de dívidas. Passaram pelas minhas mãos dois processos de confissão de dívidas que eu fiquei perplexo, pelo tamanho. Uma delas, da Sesamm [concessionária de esgoto da cidade, que cobra R$ 7 milhões da Prefeitura pelas obras do emissário local], achei escandaloso, absolutamente despropositado e ilegal. E uma outra, que surgiu mais recentemente, no valor de R$ 2,5 milhões, cujo processo está encaminhado ao Ministério Público. Quero dizer, o tamanho dos problemas financeiros, legais, éticos, de infraestrutura, de abandono da cidade... até hoje o pátio de veículos sucateados [do município] só está parcialmente tocado, porque nem pessoal nós tínhamos na área de manutenção. Eu me lembro de quando assumi a Prefeitura, há 15 anos, o setor de manutenção de veículos tinha por volta de oito a dez profissionais, cada um especializado em sua área. Hoje são três pessoas para cuidar de 100 veículos que ficaram encostados durante anos por coisas irrisórias e que praticamente não servem mais para nada. A deterioração sem uso é muito maior do que sendo usado. Outra coisa: folha de pagamento cresceu muito e ninguém se preocupou nesses quatro anos com a questão da receita. E alavancar a receita depois que ela entra em parafuso, como entrou, é muito difícil. Agora você olha o panorama brasileiro também, com a paralisação da Economia, toda a arrecadação estadual e federal caindo, cai a do município também, pois são transferências constitucionais. Então a situação da cidade era e é pior do que eu imaginava.

De todos os setores, qual foi o pior?
Difícil dizer. Porque apesar de estar aqui há seis meses, vez ou outra aparece uma notícia nova. Admito que ainda não conheço 100% dos problemas. Pode ser que alguns problemas surjam ao longo do tempo e nos surpreendam negativamente.

Também nesses seis meses já vieram críticas e até denúncias por parte de vereadores da oposição. Como está sua relação com a Câmara, especialmente os oposicionistas?
Existem problemas com dois vereadores, especificamente, que não preciso citar os nomes, cujas atitudes no desempenho do mandato demonstram que eles têm saudades do governo anterior [de Gustavo Stupp]. Se têm saudades do governo anterior é muito difícil que tenham uma afinidade comigo. Procuram fazer escândalos em cima de nada porque, objetivamente... um exemplo típico é essa questão da fiscalização [do comércio ambulante]. Você viu o que aconteceu na sessão de Câmara. Reúnem aí dez descumpridores de regras que servem de palco ou de plateia para um ou dois que precisam ser notícia porque não têm nada concreto, então se apoiam nisso. Acho isso bem ruim. Tem o problema do CR também: é um trabalho que beneficia a cidade, a Prefeitura e o funcionário público municipal. A medida que eu faço um serviço público mais barato, sobra um pouco mais de recursos para eu, o quanto antes, começar a pagar função gratificada aos funcionários ou, talvez, até ano que vem, dar uma majoração salarial. Então desprezam uma verdade desse tipo para defender dez ou doze funcionários que vão perder o emprego, não porque eu queira, mas porque o contrato com a Cidade Brasil [empresa terceirizada responsável pela limpeza pública] se expira agora e eu não vou poder renovar porque o custo é muito elevado. Outra coisa: é um trabalho social importante de recuperação de detentos que estão em final de cumprimento de pena, que não oferecem nenhum tipo de insegurança à população. Então, um ou dois se colocam frontalmente contra, ignorando todas as razões lógicas. Dessa forma fica patente que alguns não estão preocupados em ajudar a cidade, estão é com saudade do que aconteceu no passado.

Também quero perguntar sobre a relação com os demais vereadores, os de situação.
Ah, estou me relacionando bem. Tem alguns que trabalharam no governo anterior que estou tendo uma relação boa, dá para perceber que caíram na real. Tenho até que revelar que fico satisfeito de ter pessoas com intenção de apoiar o Governo, quase que seguindo um caminho de reabilitação. É o caso do Gerson [Rossi, ex-vice-prefeito], do Cristiano Gaioto [ex-gerente nos setores de limpeza pública e transporte escolar rural]... Não tenho dificuldade de trabalhar com ninguém desde que os propósitos sejam aqueles que a gente estabeleceu como regra. Não estou tendo nenhum problema de relação com a Câmara porque estou sendo rigorosamente fiel a todos os vereadores. Até agora não fiz nada a nenhum vereador que seja pessoal ou de interesse material, como arrumar trabalho para um comissionado, fazer a liberação de um funcionário, nada daquela política rasteira. Não está fácil governar. Às vezes eu demoro cinco, dez, quinze dias para conseguir convencer algumas pessoas que estão cumprindo função de confiança sem receber. Eu me coloco no lugar, não sou dono da Prefeitura ou da cidade, estou aqui de passagem. 

Os partidos aliados entendem que não podem ter a participação que gostariam no Governo?
Sim, estou bem com todos os sete [vereadores] que foram eleitos na minha coligação. Como estou bem com os outros. Eu diria que hoje são dois os vereadores que eu não teria tanta boa vontade em conversar. Se bem que as portas estão abertas, eu sou obrigado a ter um bom relacionamento, e tento ter, com todos. Também tenho que dar a mão à palmatória. Se eu cometo um erro grave, sou obrigado a responder por ele. Eu cometi um erro. Depois que eu entrei na Prefeitura, acabei sendo levado a decidir precipitadamente algo no auge da greve da Santa Casa no primeiro mês de governo. Não vou dizer que o erro não foi meu, eu me precipitei, não tive paciência. Poderia ter esperado, poderia ter analisado melhor. Mas como interessava à Administração de maneira geral, não me debrucei, achei que era correto. E na verdade, erro não houve...

O senhor fala da questão dos subsídios?
Sim, a questão dos subsídios. Ocupamos um vazio jurídico. Mas imediatamente constatado que poderia haver outra solução, eu devolvi os recursos. Até aceito as críticas. Então, em função disso, acho que a relação com a Câmara é positiva. Ontem [quarta-feira, 05] estive conversando uma hora com o Gebê [Geraldo Bertanha, vereador], ele é o líder da bancada e está fazendo um trabalho muito bom de aproximação. A minha relação com a Câmara nunca foi tão boa em nenhum governo meu.

O vereador Magalhães da Potencial, um dos aliados do Governo na Câmara, enfatizou recentemente que “um candidato derrotado na última eleição está trabalhando para destruir a atual Administração”. O senhor concorda com tal afirmação?
Eu conheço bem o Magalhães, ele é bem cauteloso nas manifestações dele. Eu não tenho essas indicações porque não me debruço sobre a avaliação disso. Se ele está dizendo, alguma coisa existe.

Como o senhor recebe as críticas de que falta diálogo ao Governo em questões polêmicas como Santa Casa, Alma Mater e, recentemente, no caso dos ambulantes?
Não há polêmica nenhuma com a Santa Casa.

Mas teve um desgaste por parte da Prefeitura, ambas as partes terminaram na Justiça.
Não, eu não fui à Justiça contra o provedor [da Santa Casa]. A iniciativa da denúncia foi do Ministério Público...

E terminou numa audiência de conciliação.
O Governo Municipal não teve ação direta contra a Santa Casa. Houve o julgamento de uma questão em função da iniciativa do MP. Com relação a Alma Mater, prefiro não falar disso, foi uma questão interna.

Mas quando esses assuntos emergiram, surgiram críticas, principalmente da Câmara, de que não houve diálogo.
Que diálogo? Fiquei sabendo das questões da Santa Casa pelo jornal. Nunca tive uma relação tão próxima e antecipada com a Câmara como estou tendo nesse governo. Tantas vezes já fui à Câmara, expus a situação real da cidade...

Finalizando essa entrevista, prefeito, qual o retorno que o senhor tem da população sobre o atual Governo?
Estou surpreso e gratificado pelo tipo de relacionamento que estou conseguindo ter com a população. Por incrível que pareça, a população continua solidária, porque tem consciência do que aconteceu na cidade. Eu faço compras em supermercados, vou a postos de gasolina, farmácias, rodo muito a cidade. Não sou exibido, mas circulo muito. Estive recentemente no concerto da Orquestra Sinfônica da Lyra Mojimiriana, com o maestro Carlinhos Lima no Centro Cultural, e fui muito bem recebido. Depois que entrei na Prefeitura não tive um momento em que uma pessoa tenha sido displicente em me estender a mão. Não tive nenhuma atitude de indiferença. A população sabe o que tenho que fazer nesses três anos e meio que me restam para minimamente melhorar o padrão de vida da cidade.

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