Peça 'Pequenas Igrejas, Grandes Negócios' é cancelada após pressão de vereadores;

Flávio Magalhães

A peça de teatro “Pequenas Igrejas, Grandes Negócios” foi cancelada após uma série de manifestações contrárias de alguns vereadores da bancada evangélica da Câmara Municipal e de internautas nas redes sociais. O espetáculo seria encenado na noite de sábado, 17, a partir das 21h, no Centro Cultural, conforme os cartazes de divulgação.

Foram esses cartazes, aliás, o estopim para as críticas já na segunda-feira, 12, durante sessão da Câmara Municipal. “Achei uma afronta à nossa crença, à nossa liberdade de crer e dar o dízimo”, declarou o vereador Tiago Costa (PMDB), que fez o discurso mais contundente da noite. O parlamentar criticou duramente a ilustração de um livro que faz alusão à Bíblia, livro considerado sagrado para os cristãos, com uma nota de R$ 100.

“E eu não estou falando de bandeira religiosa, de igreja evangélica ou igreja católica. Estou falando do artigo 5º da Constituição Federal, que diz que é inviolável a sua crença”, frisou. “A liberdade de expressão vai até o limite em que você afronta a liberdade daquele que crê em algo”, complementou. “Cultura, sou favorável. Mas não queiram usar os instrumentos de crença de cada um, sejam eles quais forem, para esculachar o evangelho que nós acreditamos”.

Companheiro de bancada de Tiago, o vereador Moacir Goleiro (PMDB) também se manifestou contrário ao espetáculo, justificando que ela “denegria” a imagem da família. Já Samuel Cavalcante utilizou as redes sociais para externar suas críticas. “Peça de teatro que será apresentada no Centro Cultural ofende o cristianismo, zomba das igrejas e satiriza a fé cristã”, postou ainda na noite de segunda-feira.

Samuel afirmou posteriormente ter se reunido com o prefeito Carlos Nelson Bueno (PSDB) para manifestar o repúdio contra a peça e pedir o seu cancelamento. “Vivemos em um país cristão, uma cidade cristã, não vamos admitir que zombem da fé de milhões de pessoas”, afirmou na quinta-feira, 15. A Secretaria de Cultura informou naquele mesmo dia o cancelamento de “Pequenas Igreja, Grandes Negócios”, por decisão da produtora.

Após a polêmica ganhar grande repercussão, Cavalcante voltou a se manifestar. “Jamais vou apoiar o investimento de dinheiro público em carnaval, peças que satirizam o cristianismo ou coisa do gênero”, declarou. “Gastar dinheiro com grupos de samba e peças de teatro que não acrescenta (sic) nada na vida dos cidadãos de bem, isso eu nunca vou apoiar!”, continuou. “Não está feliz com meu posicionamento? Não vote neste vereador. Eu fui eleito para defender o modelo tradicional da família, ponto final”.

Peça é inspirada em obra de 1962 de Lauro César Muniz


CENSURA
O diretor responsável por “Pequenas Empresas, Grandes Negócios”, Benê Silva, conversou com a reportagem de A COMARCA na manhã de ontem, 16. Relatou que foi a primeira vez que enfrentou esse tipo de problema com a peça. Lembrou ainda que o mesmo espetáculo foi encenado no Teatro Castro Alves, em Campinas, bem ao lado de um tempo da Igreja Universal do Reino de Deus.

“E havia um cartaz, até mais apimentado do que esse usado em Mogi Mirim, em frente à Igreja Universal. Mas ninguém encostou no nosso banner, sempre houve muito respeito”, contou. “Até porque ninguém é obrigado a assistir, ninguém vai te levar a força para o teatro”, argumentou o produtor cultural.

Benê criticou a postura dos vereadores mogimirianos. “Usaram a peça como bode expiatório, mas não perceberam que estavam colocando Mogi Mirim como anedotário nacional”, avaliou. “Essas pessoas não lutam em benefício da igreja, lutam em benefício próprio”, disparou.

“Se fosse um lugar mais sério [a Câmara Municipal], seria aberta uma CPI para esses vereadores”, disse o diretor, fazendo referência ao princípio constitucional da laicidade do Estado. “Eles levaram o assunto religião até a tribuna, misturaram as coisas”.

Benê Silva faz teatro desde os anos 1970, época em que o Brasil vivia sob um Regime Militar. “Já tive peças censuradas pelo Departamento de Ordem Política e Social (DOPS)”, recordou. “Pequenas Igrejas, Grandes Negócios”, porém, é inspirada em uma obra de Lauro Cesar Muniz anterior à Ditadura: “O Santo Milagroso”, de 1962.

A história se passa numa cidade do interior, onde um padre e um pastor disputam a quantidade de fieis e o apoio do Coronel, líder político da cidade. A trama gira em torno de um “milagre” provocado acidentalmente pelos dois párocos da cidade que, após verificarem os “dividendos espirituais” do “milagre”, resolvem continuar com a farsa e garantir o rebanho necessário para suas igrejas. O que se vê, a partir daí, é uma sequência de situações absurdas e trapalhadas, misturando o jogo de interesses através da comercialização da fé com política e o conflito com a ética.

Ouvida por A COMARCA, a atriz e diretora Rosane Improta criticou a postura dos parlamentares locais. “Os vereadores foram preconceituosos e arbitrários”, avaliou. “A Arte foi feita para expressar o que sentimos e nós estamos numa Democracia, e não numa Ditadura como aquela que prendeu Caetano Veloso e Gilberto Gil”.

Cartaz foi estopim para uma série de críticas da 'bancada evangélica'

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