Santa Casa tem dívida de R$ 54 milhões

Flávio Magalhães

A Santa Casa de Misericórdia possui uma dívida atual de quase R$ 54 milhões. Foi essa a informação apresentada durante reunião na última quarta-feira, 4, no auditório da entidade, para um público formado por vereadores, imprensa e demais convidados. Foi revelado ainda que o hospital possui um déficit mensal de R$ 642 mil.

As informações foram prestadas exatamente um ano após Milton Bonatti assumir como provedor da Santa Casa. Ele foi alçado ao cargo após a renúncia de Dílson Guarnieri, que por sua vez havia substituído Josué Lolli, que também abandonou a provedoria, após a crise que culminou na greve que fechou o hospital por alguns dias, em janeiro de 2017, além do desgaste com o prefeito Carlos Nelson Bueno (PSDB).

Em um ano de provedoria, Bonatti buscou administradores hospitalares para a Santa Casa. Em dezembro, escolheu definitivamente Clodoaldo dos Santos, profissional que atua na área há pelo menos dez anos. E coube a ele revelar em números a situação do único hospital mogimiriano que atende pacientes pelo Sistema Único de Saúde (SUS).

“Nosso problema maior hoje é o empréstimo feito em 2017”, resumiu Santos, em referência ao recurso obtida pela Caixa Econômica Federal (CEF). Lembrou, no entanto, que tal empréstimo foi tomado pois a situação da Santa Casa já era delicada. “Ninguém empresta dinheiro porque é bom, é uma consequência, houve um fato gerador”, explicou.

Pior que o empréstimo foi seu uso. Dos R$ 13 milhões, ficaram retidos na CEF R$ 6 milhões, para saldar dívidas da instituição com o banco. Dos R$ 7 milhões restantes, nenhum centavo foi gasto, por exemplo, para o 13º salário dos funcionários, que até hoje não foi pago. “Quem estava a frente da administração deveria ter provisionado isso”, avaliou Santos.

Na avaliação do administrador hospitalar, os problemas da Santa Casa começaram em 2010. A partir daí, houve fatos marcantes como a intervenção do prefeito Carlos Nelson Bueno e o rompimento do convênio com a Unimed. “A partir disso foram feitos muitos empréstimos e isso foi gerando dívida”.

Mesmo sem o empréstimo com a CEF, a Santa Casa ainda deve R$ 2 milhões ao Itaú, outros R$ 6,4 milhões para a Caixa (demais empréstimos), R$ 5 milhões em impostos, R$ 1,2 milhão aos médicos, R$ 1,4 milhão em passivo trabalhista, R$ 1,5 milhão aos fornecedores e até R$ 500 mil em serviços de telefonia. São R$ 37 milhões ao todo.


Para manter a estrutura do hospital, considerando as parcelas dos empréstimos, a folha de pagamento, os impostos e encargos, materiais, medicamentos, médicos e demais despesas, a Santa Casa gasta mensalmente R$ 3,1 milhões. Mas arrecada em receitas quase R$ 2,5 milhões. Daí surge o rombo de mais de R$ 600 mil ao mês.

O hospital garante que medidas estão sendo tomadas e que as despesas de 2017, embora extremamente altas, já foram menores que as de 2016. Clodoaldo destaca ainda que conseguiu reduzir a folha de pagamento em 40% (de R$ 1,4 milhão para R$ 852 mil) com a demissão de 131 dos 566 colaboradores da Santa Casa.

Apesar da situação crítica, tanto o administrador quanto o provedor descartam fechar as portas do hospital ou ceder à uma intervenção. “Todos os nossos serviços continuam ativos”, reforçou Clodoaldo. A missão é, primeiramente, reequilibrar despesas e receitas. Para isso, a Santa Casa deve intensificar as ações de caráter beneficente, como campanhas junto à população.

Milton Bonatti revelou que enviou à Prefeitura um ofício pedindo à equipe de Carlos Nelson que reveja o corte de 20% nos convênios com a Santa Casa, medida imposta no início do ano passado através de decreto do prefeito a todos os contratos com todos os prestadores de serviço. A Administração Municipal, por nota, afirmou ainda estar ciente do pedido, mas ressaltou que “a decisão de reduzir os contratos de prestadores de serviços e aluguéis de prédios públicos tomada no início de 2017 foi fundamental para o equilíbrio das contas da Prefeitura e cumprimento dos compromissos assumidos e que todas as reduções foram realizadas sem que os serviços oferecidos à população fossem prejudicados”.

Na mesma nota à imprensa, a Prefeitura descartou a intervenção no hospital, garantindo que “essa ideia não foi sequer cogitada pela Administração Municipal”. O provedor da Santa Casa concorda com essa visão. “A Prefeitura jamais vai intervir enquanto a população estiver sendo atendida”, reforçou. “Confio muito na minha equipe e eles acreditam que há uma luz no fim do túnel”, complementou.

DUODÉCIMOS
Durante a reunião, que contou com a presença de nove vereadores, foi sugerido também que a devolução do duodécimo da Câmara Municipal seja destinada à Santa Casa. Os duodécimos são parcelas que a Prefeitura repassa ao Legislativo, para suas despesas. O dinheiro não utilizado é obrigatoriamente devolvido todos os anos, mas tradicionalmente em dezembro.

Já houve situações em que o duodécimo devolvido foi destinado para a Santa Casa, mas, recentemente, o dinheiro que sobra da Câmara Municipal tem sido utilizado para socorrer os cofres da Prefeitura, principalmente para completar a folha de pagamento do funcionalismo municipal, como ocorreu algumas vezes na gestão Gustavo Stupp e ano passado, com o prefeito Carlos Nelson.

Nenhum comentário:

Leave a Reply

Scroll to top