Amor regado a dinheiro e açúcar

Flávio Magalhães

Unir mulheres jovens, bonitas e ambiciosas a homens ricos e dispostos a patrocinar financeiramente um relacionamento. Essa é a lógica das relações sugar (“açúcar”, em inglês), que tem ganhado cada vez mais adeptos no Brasil e hoje marca forte presença até mesmo nas cidades interioranas da Baixa Mogiana, como Mogi Mirim, Mogi Guaçu e Itapira.

A intermediação para esse tipo de relacionamento se dá pela internet. Há redes sociais dedicadas exclusivamente aos sugar daddies (“papais de açúcar”, em tradução livre) e sugar babies (“bebês de açúcar”). A reportagem de A COMARCA entrou em contato com a mais conhecida delas, a Meu Patrocínio, e obteve detalhes sobre como funciona esse grande “pote de açúcar”.

Antes de mais nada, é preciso um cadastro para fazer parte dessas redes sociais. São solicitadas informações pessoais como altura, peso e cor de cabelo, além de enviar fotos que estejam claras e nítidas. Com o perfil completo, a equipe do site realiza uma avaliação e, se o candidato ou candidata estiver alinhado aos termos e valores exigidos, é então colocado em uma fila de espera.

Em sua página na internet, o Meu Patrocínio se justifica. “Tem muita gente querendo entrar no nosso pote de açúcar, mas não queremos que vire uma bagunça”. O período de aprovação é de, no mínimo, 24 horas, podendo perdurar pelo tempo que for considerado necessário pelo site. O empresário Lucas Macedo Queiroz é um dos que conseguiu aprovação para o seleto grupo.

Mineiro de nascença, Lucas mora em Ribeirão Preto, mas está sempre na Baixa Mogiana a trabalho. Ele contou para a reportagem de A COMARCA que ouviu falar das relações sugar através de um amigo. “Achei interessante e comecei a estudar sobre o assunto, e percebi que era o que estava precisando, só não sabia onde procurar e como ter ligação com outras pessoas adeptas a isso”, explicou. Foi aí que veio o cadastro no Meu Patrocínio.

“Com o relacionamento sugar, minha vida mudou”, garante o sugar daddy. O empresário revelou que está saindo com uma sugar baby no momento, mas sem compromissos. “Às vezes eu a ajudo financeiramente, mas nada significativo com relação a minha realidade”, disse. No entanto, garante que está à procura de um relacionamento mais sério. “Procuro uma sugar baby que se identifique comigo, reciprocidade sempre acima de qualquer sentimento”.

Assim como Lucas, existem 97 sugar daddies nas cidades de Mogi Mirim, Mogi Guaçu e Itapira inscritos no Meu Patrocínio, segundo levantamento do próprio site a pedido de A COMARCA. Eles possuem, em média, 39 anos e uma renda mensal de R$ 60 mil, com um patrimônio de aproximadamente R$ 2 milhões. Elas, porém, são maioria. Há 394 sugar babies nas três cidades, com idade média de 26 anos.

A mogimiriana Jéssica* (nome fictício, a pedido dela), de 27 anos, faz parte desse universo. Começou por curiosidade, mas acabou gostando do conceito. “As vantagens de um relacionamento sugar estão em me relacionar com alguém mais amadurecido, bem estabelecido financeiramente, e alguém que já tem bastante experiência. Pode acontecer fora do site também, mas ali você já sabe o que quer e quem está à procura”, descreveu para A COMARCA.

Trabalhando atualmente na área comercial de uma empresa, Jéssica* afirma que procura um sugar daddy que transmita segurança para um relacionamento. “Também acho que deve ser bom me relacionar com alguém bem-sucedido em vários sentidos, para ter experiências diferentes e para aprender coisas”. A mogimiriana já conheceu um sugar daddy, “mas não teve muita química”. Agora está conhecendo com um pretendente de outra cidade. “Não sei se como vai ser esse relacionamento à distância, mas eu estou curtindo”, disse.

E mais pessoas parecem se interessar pelos relacionamentos sugar. O Meu Patrocínio, por exemplo, está há mais de dois no Brasil e registrou em 2017 um crescimento de 365%. Neste primeiro semestre do ano, alcançou a marca de 500 mil usuários. “O crescimento é relativamente estável, como qualquer rede, mas a tendência é crescer porque as pessoas indicam para os amigos, muitas pessoas têm curiosidade”, explicou a diretora executiva da rede social, Jennifer Lobo.

A expansão fez com a rede social também começasse a aceitar as sugar mommies, mulheres maduras e bem-sucedidas que procuram por jovens atraentes, na mesma lógica das sugar babies. Há ainda uma versão gay do site, que conta com pelo menos 55 inscritos em Mogi Mirim, Mogi Guaçu e Itapira.



Todo relacionamento é feito de interesses,
garante diretora executiva de rede social

Questionada pela reportagem de A COMARCA se redes sociais como a Meu Patrocínio favorecem relacionamentos interesseiros, a diretora executiva (CEO) do site, Jennifer Lobo, foi categórica. “Todo relacionamento é feito de interesses, você se interessa pelo que a pessoa te proporciona, prazer, alegria, segurança, beleza, admiração, conforto. Amizades também são feitas de interesses”.

Jennifer também rebateu as críticas que associam as sugar babies a prostituição. “A sugar baby busca um relacionamento, momentos prazerosos, leve, sem cobranças, que pode ou não evoluir para um namoro, assim como já aconteceram casamentos a partir de encontros no site”, justificou. “A garota de programa não quer relacionamento, ela tem um ritual que tem hora para começar e hora para acabar e um valor estabelecido. Depois ela indica colegas para o cliente, espera que o cliente indique para os amigos, é uma coisa completamente diferente”, comparou.

“No Brasil tradicionalmente as mulheres ganham menos, tem menos acesso a cargos de chefia, e são as principais encarregadas das tarefas domesticas, então é mais natural que ela aos 30 anos não tenha alcançado o que um homem alcançaria, então deve prevalecer o bom senso na hora de pagar as contas na relação”, explicou para a reportagem de A COMARCA. “É claro que estou falando de um modo geral, cada vez mais as mulheres estão alcançando espaços de poder. E neste caso o Meu Patrocínio tem o perfil das sugar mommies (‘mamães de açúcar’), que são as mulheres bem-sucedidas em busca de um relacionamento sugar”.

O empresário Lucas Macedo Queiroz, que faz parte da rede social, exalta a sinceridade das relações sugar. “Acredito que vivemos em uma situação de total interesse em tudo. Então por que não tratar um relacionamento do tipo com a mesma ideologia?”, destacou. O sugar daddy reforçou ainda que os perfis das sugar babies no Meu Patrocínio comprovam que essas mulheres não estão em busca apenas de dinheiro. “Elas não querem só mimos e jantares, mas sim crescimento pessoal e profissional”, esclareceu.

Natural dos Estados Unidos, Jennifer explica que esse tipo de relacionamento é muito comum por lá. “Quando você conhece alguém em um bar ou restaurante, a segunda pergunta que costumam fazer é no que você trabalha, para seguir uma conversa com trocas de experiência ou para saber se tem um padrão compatível”, afirmou. “Isso sem preconceito nenhum em relação a você querer saber o padrão de vida do outro para decidir se quer se relacionar ou não”.

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