Cedoch rejeita demolição do antigo Centro de Saúde

Flávio Magalhães

O prédio do antigo Centro de Saúde possui valor histórico e não deve ser derrubado. Esta foi a conclusão do parecer emitido nesta semana pelo Centro de Documentação Histórica (Cedoch) sobre o pedido de demolição do imóvel localizado na Avenida Santo Antonio, entre o Centro Cultural e a Delegacia Regional de Ensino. A reportagem de A COMARCA obteve acesso ao documento.

A primeira conclusão do parecer assinado pelo arquiteto Hamilton Turola é de que o imóvel do Centro de Saúde, assim como seus vizinhos, possui “significativo valor histórico” não apenas para Mogi Mirim, mas também para o Estado de São Paulo, visto que são frutos da “Escola Paulista de Arquitetura Moderna”, conhecida pela adoção do concreto armado aparente e pela valorização da estrutura.

Os pesquisadores do Cedoch descobriram que os três prédios da Avenida Santo Antonio foram assinados por três importantes arquitetos. Isso porque as obras integraram, no início dos anos 1960, o chamado Plano de Ação do então governador Carvalho Pinto, que difundiu por todo o estado construções de caráter modernista, em razão dos profissionais convidados para projetarem as obras pertencerem a “Escola Paulista de Arquitetura Moderna”.

No caso do Centro de Saúde – chamado na época de Unidade Polivalente de Saúde – o responsável pelo projeto foi o arquiteto e professor da Universidade de São Paulo (USP) Gian Carlo Gasperini, um dos nomes mais relevantes da arquitetura brasileira. Seu escritório é responsável por obras como a sede do Tribunal de Contas do Município de São Paulo (TCM) e o auditório “Claudio Santoro”, em Campos do Jordão.

O parecer ainda aponta que o imóvel, abandonado há anos, não sofreu danos estruturais, o que abre a possibilidade de restauro da obra, composta por dois blocos: um maior e de ocupação térrea, dividido em várias salas, e outro dividido em dois pavimentos (térreo e superior), totalizando 999 metros quadrados de área construída. Ambos ligados por uma marquise. Foram identificadas ainda ampliações posteriores, que não fazem parte do projeto original.

Embora a estrutura permaneça firme, os demais elementos da obra sofreram com a falta de manutenção. Foram verificados afundamento do piso interno, descolamentos de rebocos e revestimentos, deterioração de telhas, calhas e rufos, inúmeros focos de umidade na base das paredes, infiltração, deterioração de forros, destruição das esquadrias e vidraças e proliferação de vegetação.

Dessa forma, o Cedoch sugere que ações de preservação do imóvel devem ser consideradas, para manter os elementos arquitetônicos originais. Além disso, uma restauração do prédio é recomendada, para que seja dado novo uso à construção.

(Foto: Divulgação /Cedoch)

ELEFANTE BRANCO
Conforme já havia adiantado à imprensa em ocasiões anteriores, o prefeito Carlos Nelson Bueno (PSDB) deu sinais de que vai respeitar a sugestão do Centro de Documentação Histórica (Cedoch), ou seja, não vai ordenar a demolição do prédio da Avenida Santo Antonio. “Não sou o dono da cidade, mas vai ficar aquele elefante branco”, disse para A COMARCA, em referência ao Centro de Saúde.

Uma decisão final, porém, deve ser tomada nos próximos dias. Secretários municipais de diversos setores, inclusive do jurídico, devem se reunir com o chefe do Executivo para definir o posicionamento da Administração Municipal diante desse revés. Um restauro da obra, como sugere o Cedoch, já foi descartado por Carlos Nelson.

O que o Governo deve decidir nos próximos dias é se mantém o Centro de Saúde de pé, como quer o Cedoch, mas sem qualquer tipo de investimento para sua manutenção ou recuperação, ou se ignora o parecer técnico do órgão e determina a demolição do imóvel para dar lugar, provavelmente, a uma área verde que funcionará como extensão do Centro Cultural.

Isso porque o parecer emitido pelos pesquisadores do Cedoch possui caráter meramente opinativo, embora seja embasado e endossado por arquitetos, historiadores e professores. A obrigação de consulta prévia ao órgão foi instituída em 2015, durante a revisão do Plano Diretor, numa tentativa de se preservar o já escasso patrimônio histórico-cultural de Mogi Mirim.

‘Imóvel insignificante e com falhas’,
criticou A COMARCA na inauguração

A reportagem de A COMARCA buscou notícias veiculadas pelo jornal entre 1959 e 1961 referentes a construção dos três edifícios que beiram o Ribeirão Santo Antonio. Havia grande expectativa, principalmente sobre a construção do novo Fórum. No entanto, o periódico comandado na época pelo jornalista Arthur de Azevedo não poupou críticas ao prédio do Centro de Saúde.

“O que deveria ser o mais importante dos edifícios, tendo em vista as múltiplas repartições ali instaladas e sua importância para a coletividade, por medida de economia que não se compreende num administrador do porte do atual governador Carvalho Pinto, resultou num prédio insignificante, com falhas gritantes”, cravou A COMARCA em sua edição do dia 26 de fevereiro de 1961.

Naquela ocasião, as repartições da Secretaria de Estado da Saúde começavam a se mudar para o novo prédio, considerado acanhado pela imprensa local. Três meses depois, em 28 de maio de 1961, ocorreu a inauguração oficial de cada uma das construções, com a presença do governador do estado e demais autoridades da Justiça, da Saúde e da Agricultura.

As tratativas para a edificação dos três prédios começaram logo em 1959, quando a classe jurídica da cidade se movimentou pela construção de um novo Fórum, visto que o antigo – que dividia espaço com a delegacia no imóvel da Rua Dr. Jorge Tibiriçá – já se mostrava insuficiente e em condições precárias.

Rapidamente, o governo do Estado garantiu a construção do novo prédio, incluindo posteriormente ao complexo os imóveis do Centro de Saúde e da Casa da Lavoura. O então prefeito Adib Chaib indicou a região do Ribeirão Santo Antonio para a construção, doando os terrenos para o Instituto de Previdência do Estado de São Paulo, que realizou as obras.

Em menos de 30 anos, o Fórum se mudaria para o alto do bairro da Santa Cruz e o prédio seria reformado para receber o Centro Cultural. Já a Casa da Lavoura deu lugar à sede da Diretoria Regional de Ensino. O Centro de Saúde foi o único a não ser reaproveitado definitivamente.

O parecer emitido nesta semana pelo Cedoch indica que as críticas de A COMARCA tinham razão, já que a antiga Unidade Polivalente de Saúde recebeu ampliações após a sua inauguração, um indício de que a construção original não suportava a demanda de serviços.


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