Após dois meses, serviço de acolhimento a moradores de rua supera desconfiança

Flávio Magalhães

Em funcionamento há pouco mais de dois meses, o serviço de acolhimento a moradores de rua instalado na Ladeira São Benedito pelo Centro de Referência em Assistência Social (Creas) superou as desconfianças dos vizinhos e vem prestando atendimento diário na antiga sede da Guarda Mirim. Na última quinta-feira, 27, a Secretaria Municipal de Assistência Social promoveu a inauguração oficial do espaço.

“Os vizinhos nem perceberam quando começamos a funcionar, porque as pessoas em situação de rua ficam aguardando o atendimento dentro do prédio, não na calçada”, explicou a secretária Leila Feracioli Iazzetta para A COMARCA. O espaço oferece café da manhã e banho aos moradores de rua diariamente, o que era feito anteriormente na sede do Creas, localizado na esquina entre a Igreja de São Benedito e a Santa Casa de Misericórdia.

Naquele local, o Creas precisou reduzir o serviço para apenas dois dias na semana, porque os moradores de rua começaram a se reunir na Praça Duque de Caxias, causando desconforto aos vizinhos. Para resolver a polêmica, a Secretaria de Assistência Social alugou a antiga sede da Guarda Mirim, um espaço mais amplo, para voltar a oferecer o atendimento diariamente.

Na época, o anúncio desagradou aos moradores da ladeira São Benedito, que chegaram a organizar um abaixo-assinado contra a mudança. Felizmente, o temor não se confirmou. Isso porque, apesar de Mogi Mirim ter aproximadamente 100 moradores de rua, apenas 20 procuram o serviço com frequência. Além disso, os próprios atendidos ajudam a manter o local sempre limpo e organizado.

Hoje, o espaço está até de cara nova. Uma oficina de grafite com jovens, a convite do Creas, transformou a fachada do local. Por ocasião da inauguração, um dos atendidos, chamado Luiz Gustavo, leu um poema feito por um morador de rua de Salvador (BA) chamado Carlos Eduardo. “Não somos lixo, não somos bicho, somos humanos, se na rua estamos é porque nos desencontramos”, diz parte do texto.

A secretária Leila Feracioli Iazzetta 


AUDIÊNCIA
Na última quarta-feira, 26, o vereador Alexandre Cintra (PSDB) realizou uma audiência pública sobre os moradores em situação de rua. Foram convidados a secretária Leila Iazzetta e o doutor em Direitos Humanos pela Universidade de São Paulo (USP) Humberto Bersani. Na ocasião, a Secretaria de Assistência Social trouxe números que apontam uma ampliação no atendimento à população de rua, em razão do novo local inaugurado na Ladeira São Benedito.

“Eles [moradores de rua] são subproduto da sociedade em que a gente vive, essas pessoas tiveram origem numa família biológica como qualquer um de nós”, lembrou Leila. Questionada pelos vereadores Geraldo Bertanha (SD) e Maria Helena Scudeler (PSB) sobre as reclamações da população sobre a sujeira provocada pelos moradores de rua, a secretária fez uma ressalva. “Todo dia eram retirados de sete a oito sacos de lixo do Jardim Velho, isso não é sujeira de morador em situação de rua, mas da própria população que não tem consciência”, afirmou. Além disso, a secretária chamou atenção para a falta de banheiros públicos na cidade.

Um dos principais objetivos da Secretaria é conseguir recursos para a instalação de uma Casa de Passagem, um tipo de serviço semelhante ao popularmente conhecido como albergue, no qual os moradores de rua podem pernoitar. O investimento necessário para isso, segundo cálculos da Pasta, é de R$ 400 mil ao ano. “É um tipo de investimento que a sociedade não quer pagar o preço”, lamentou Leila.

Nenhum comentário:

Leave a Reply

Scroll to top