Interior registra mais casos de suicídio

Flávio Magalhães

O movimento Setembro Amarelo, mês mundial de prevenção do suicídio, iniciado em 2015, visa sensibilizar e conscientizar a população sobre o tema. O assunto, que já foi um tabu muito maior, ainda enfrenta dificuldades para ser debatido, o que interfere na identificação de sinais, oferta e busca por ajuda, justamente pelos preconceitos e falta de informação.

A questão se mostra cada vez mais relevante, principalmente se considerando dados atuais. Durante o ano passado, a vizinha Itapira registrou 19 ocorrências de suicídio, número bem acima da média nacional: 5,7 casos para cada 100 mil habitantes. O município itapirense possui aproximadamente 74 mil pessoas.

Para um grupo de psicólogas ouvidas pela reportagem de A COMARCA, a estatística vem ao encontro de estudos recentes que apontam o interior como local de maior incidência de suicídios, em comparação com as capitais. Mariana Valério, Thaisa Tótollo e Roseli Silva são unânimes ao afirmar que a prevenção para esses casos passa obrigatoriamente pelo diálogo e pela quebra de barreiras para o tratamento.

“Hoje em dia estamos falando mais sobre suicídio e suas formas de prevenção, mas ao mesmo tempo há um isolamento pessoal mais frequente do que antes”, aponta Mariana. “Já atendi um caso de um jovem recém-chegado em outra cidade que tinha como única rede de apoio uma amiga que conheceu através do Tinder [aplicativo de relacionamentos], e foi justamente essa pessoa que o acompanhou nas crises”, exemplifica Thaisa.

“Rede de apoio” é o termo usado para identificar pessoas de confiança do círculo social de quem está pensando em tirar a própria vida, que podem ajudar na prevenção ao suicídio. Nesse cenário, o diálogo se mostra fundamental. “É importante falar sobre, exteriorizar sentimentos”, destaca Roseli, lembrando que essa percepção precisa ser reforçada principalmente junto ao público masculino. “O homem geralmente não busca ajuda, até por uma questão cultural”, frisa a psicóloga.

E segundo o Ministério da Saúde, o suicídio é a terceira maior causa de óbitos entre homens de 15 a 29 anos. Quase 80% das mortes autoprovocadas são de pessoas do sexo masculino. Isso porque costumam utilizar métodos mais efetivos para tirar a própria vida. No entanto, a maioria das tentativas de suicídio é entre mulheres: quase 70%.

Fonte: Ministério da Saúde

Quando alguém atenta contra a própria vida, é porque já está no estado mais avançado de risco e precisa de acompanhamento profissional. Outros estágios menos graves também necessitam de tratamento. Antes disso, é fundamental o apoio de pessoas próximas, como família e amigos. Entre as orientações, não julgar ou demonizar os sentimentos de quem pensa em tirar a própria vida é muito importante, assim como falar abertamente sobre assunto e não menosprezar a pessoa.

“A família e as pessoas próximas precisam entender os sinais, pois essas pessoas vão dando sinais, geralmente apresentam algum outro tipo de transtorno”, alerta Thaisa. Um desses transtornos é a depressão. Contudo, é um equívoco atribuir o comportamento suicida a apenas uma causa. “O suicídio é uma forma de projetar na morte uma solução, a última solução para acabar com a dor”, explica a psicóloga.

E o número de pessoas que buscam soluções através do suicídio vem crescendo no Brasil. Segundo o mais recente boletim epidemiológico do Ministério da Saúde, são mais de 11 mil suicídios por ano. Mais de 800 mil tiram a própria vida ao redor do mundo, de acordo com a Organização Mundial da Saúde. O equivalente a um caso de suicídio a cada 45 segundos.

Movimentos como o Setembro Amarelo buscam frear o avanço dos casos de suicídio e vencer o preconceito que envolve o tema. “Falar de morte na nossa sociedade já é muito difícil. Suicídio é tabu em dobro”, comenta Thaisa. Mas a ideia é incentivar o tratamento para quem precisa. Em Mogi Mirim, recomenda-se procurar a Unidade Básica de Saúde (UBS) mais próxima para o acompanhamento com um profissional.

EVENTOS
Mariana, Thaisa e Roseli, juntamente com o também psicólogo Hugo Almeida, formam o grupo Tabus, que se formou na cidade no ano passado e tem como proposta jogar luz sobre temas pouco debatidos na sociedade. Foi assim quando decidiram fazer um documentário sobre suicídio, no primeiro semestre do ano.

E a partir do Setembro Amarelo, o grupo promoverá a Caminhada de Prevenção ao Suicídio, no próximo dia 30, a partir das 8h30, no Teatro de Arena. “Há um sentido simbólico, do caminhar junto, além de ser um espaço de lazer e socialização”, explicou Thaisa. Outro ponto importante é que os exercícios físicos aumentam as substâncias do prazer - a seratonina, a dopamina e a noradrenalina -, que ficam em níveis baixos em pessoas deprimidas.

No dia 26, das 9h ao meio-dia, a Prefeitura de Mogi Mirim realiza o evento “Suicídio: Prevenção e Posvenção”, voltado para profissionais da Saúde, da Educação, da Assistência Social e do Judiciário. As inscrições se darão pela internet até quarta-feira, 19. Mais informações pelo número 3806-3765 ou 3804-1352.

PREVENÇÃO
O suicídio acomete pessoas de todas as idades e classes sociais. O Centro de Valorização da Vida (CVV) dá apoio emocional e preventivo ao suicídio. Se você está em busca de ajuda, ligue para 188 (número gratuito) ou acesse www.cvv.org.br.

Nenhum comentário:

Leave a Reply

Scroll to top