Mãe cursa o Ensino Médio junto com filho portador de Síndrome de Down

Flávio Magalhães

Quando Andrey Luiz Rocha nasceu, sua mãe Ivete Rocha não imaginava todos os aprendizados pelos quais teria que passar dali em diante. A maternidade já não era novidade, mas a Síndrome de Down, sim. “Passei dias chorando, por não saber o que fazer”, relembra. O amparo veio quando procurou a Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (Apae).

Com o auxílio da Apae, Ivete viu o filho crescer e se desenvolver. Em pouco mais de três anos, aquele ambiente já não era suficiente para Andrey. Ele precisava ir além. Foi, então, matriculado no ensino regular. Estudou na escola infantil do bairro do Tucura, frequentou o Ensino Fundamental nas Emebs “Geraldo Philomeno” e “Humberto Brasi”, na zona Norte. Quando chegou ao Ensino Médio, porém, surgiu outro desafio.

A rede estadual paulista de ensino não oferece em Mogi Mirim professores de apoio nos mesmos moldes das escolas municipais, o que sempre foi importante para o processo de aprendizado de Andrey. Foi quando Ivete decidiu cursar o Ensino Médio junto com o filho, na mesma classe. Para ajudá-lo, embora não para fazer o papel de uma professora auxiliar. Foi matriculada como aluna, de fato.

Ivete interrompeu os estudos antes de completar a antiga 8ª série (atual 9º ano). Recorreu ao Exame Nacional para Certificação de Competências de Jovens e Adultos (Encceja) para concluir o Ensino Fundamental. Poderia lançar mão da mesma ferramenta para obter o certificado de conclusão do Ensino Médio, no entanto, preferiu cursá-lo com Andrey, na escola “Ernani Calbucci”. O aprendizado foi em dobro.

“Tinha dia em que eu chorava por não conseguir aprender o conteúdo da sala de aula, mas eu não podia desistir, porque o meu objetivo era maior que o meu medo”, conta para a reportagem de A COMARCA. “E os professores também se esforçavam para ensinar para o Andrey, pesquisavam sobre, realmente abraçaram a causa”, afirma.

O caminho não foi fácil para Ivete. O choque de gerações pesou. Mas ela encontrava alento no próprio filho. “Ele é muito dedicado, não deixa nada para depois e tem uma alegria contagiante”, relata. “Tem uma luz maravilhosa, é um anjo que Deus enviou para que eu pudesse cuidar”, resume. E todo o esforço valeu a pena.

Neste ano, ambos se formam no Ensino Médio. A colação de grau é na próxima quarta-feira, 19. “É gratificante! Porque nunca pensei que fosse voltar a estudar”, diz Ivete. “A nossa luta não foi em vão, foi por nós e por outros que virão”, complementa, citando que o caso de Andrey servirá de modelo para futuros alunos com necessidades especiais que frequentem o ensino regular. “E eu jamais poderia desistir, sou vez e voz do meu filho. É uma missão”.

E Ivete não pretende parar. Aos 54 anos, foi aprovada para cursar a faculdade de Gastronomia na Unipinhal. Já Andrey, que gosta de esportes e música, deve praticar algum curso ou oficina nessas áreas em 2019. Ainda não está decidido. “Agora estamos de férias, vamos pensar nisso depois”, diz Ivete, aos risos.

Ivete, 54, e Andrey, 19, concluíram o Ensino Médio juntos


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