CCI: 40 anos de trabalho e amor

Ana Paula Meneghetti

“Eu me via no prédio ainda quando era só mato. Foi a bênção de Deus”, revelou o fundador e presidente, por mais de 35 anos, do Centro de Convivência Infantil (CCI) de Mogi Mirim, Luiz Parra, ao lembrar do momento em que se deparou com o terreno, que hoje abriga a entidade filantrópica, durante uma de suas andanças de bicicleta pelo bairro.

Para muitos, poderia ser só mais um sonho ou um momento de ilusão, mas seu Parra, como é conhecido na cidade, tinha a intuição de que seu projeto de vida chegaria longe. E, de fato, chegou. Na última quinta-feira, 12, o CCI completou 40 anos de fundação. São quatro décadas que carregam muito trabalho de um grupo de amigos e, principalmente, amor ao próximo.

Hoje, aos 85 anos, Parra recorda como tudo começou. Com a ajuda da esposa, que também atua como merendeira no CCI, servia café com leite e pão com manteiga para as crianças, na própria casa, no Santa Luzia. A ação foi feita por mais de 20 anos até ele encontrar o sonhado terreno, o espaço ideal para concretizar sua missão.

A história poderia parar por aí simplesmente, se não fosse a providência Divina. Na época, o terreno foi cedido pela Prefeitura e os eucaliptos deram lugar aos tijolos e cimento, todos doados para construir o que está lá de pé. A partir disso, Parra teve ainda mais certeza do seu propósito aqui no plano terreno: ajudar as pessoas. “Eu nasci para fazer esse trabalho e me sinto muito feliz”, afirmou, em entrevista ao jornal A COMARCA, por telefone.

Logo no início, o CCI atendia cinco crianças. “Foi uma luta sem fim”, comentou. E a luta ainda continua. Atualmente, a entidade filantrópica mantém duas unidades, beneficiando 217 crianças, com faixa etária de 3 a 12 anos. Voltado à educação, o CCI oferece oficinas de musicalização, jiu-jítsu, teatro, ginástica, artesanato, leitura, hidroponia, em parceria com a Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), além de apoiar as crianças com o dever de casa, no período do contraturno escolar.

Ao todo, são 33 funcionários, trabalhando das 7h às 17h, para manter o funcionamento das atividades. Quanto ao ensino, a entidade adotou o método da Escola da Ponte, idealizado pelo educador português José Pacheco, no qual os próprios alunos definem quais são suas áreas de interesse e desenvolvem projetos, tanto em grupo quanto individuais.

Alunos se preparam para aula, na sede da entidade, localizada na zona Norte (Foto: Flávio Magalhães/A COMARCA)


SUSTENTABILIDADE
O foco do CCI é a sustentabilidade. Para evitar o desperdício de alimentos, as crianças, a partir de 3 anos, aprendem o sistema self-service, que ensina os pequenos a comerem tudo o que colocam na bandeja. A criança pode repetir quantas vezes quiser, nas quatro refeições servidas (café da manhã, almoço, café da tarde e jantar), porém sem deixar resto de comida no prato.

Desde 2016, o CCI também gera, por meio do sistema de placas fotovoltaicas, que transforma luz solar em energia elétrica, mais de 100% da energia que consome. Agora, a entidade estuda usar a energia excedente com o sistema de indução elétrica para substituir o gás de cozinha.

Outro aspecto sustentável é o reuso da água da chuva. Os reservatórios, com capacidade de 21 mil litros, fornecem água para vasos sanitários, serviços com a jardinagem, limpeza e também para a hidroponia, um sistema de cultivo em que as plantas se desenvolvem sem a utilização de solo, sendo alimentadas através de uma solução nutritiva.

A entidade ainda aboliu o uso de copos descartáveis, outra atitude que o meio ambiente agradece. Os copos plásticos foram substituídos por canecas de vidros, para os adultos, e garrafas semitérmicas, para os alunos. “O modelo possibilitou deixarmos de descartar na natureza cerca de 100 mil copos, gerando uma economia anual de R$ 7 mil”, informou a diretoria do CCI.

A regra é que nada vá para o lixo. Tampas plásticas, CDs, lacres de latas de bebidas, revertidos para a campanha de troca por cadeira de rodas, garrafas e potes pet são reutilizados para a confecção de brinquedos e instrumentos musicais, por exemplo. Potes de sorvete e garrafões de cinco litros de água também são reaproveitados na estufa da hidroponia.

PROJETOS E VOLUNTARIADO
Até o final de 2019, a direção planeja ativar o laboratório de informática, em parceria com a Escola Técnica Estadual (Etec) “Pedro Ferreira Alves”, que irá ceder os monitores para as aulas. Outro projeto é ampliar o número de salas para oferecer cursos profissionalizantes aos alunos do Centro de Convivência e da região. A ideia, prevista para 2022, está em negociação de parcerias.

Como toda entidade, o CCI sobrevive com a ajuda de voluntários. Além da venda de pizzas para aumentar o rendimento, há 20 anos, um grupo de amigos da Suíça, onde foi fundada uma Organização Não-Governamental (ONG), também destina uma receita, trimestralmente. Assim como seu Parra, são anjos travestidos de gente. Gente como a gente, mas que ama se doar. “É a minha casa, minha vida (o CCI). O maior presente que Deus me deu depois da minha família”, acrescentou o fundador. Não é à toa; já se pode dizer que o CCI é um pedacinho do céu aqui na Terra.

Atualmente, a instituição mantém convênio com o Poder Público e beneficia mais de 200 crianças, de 3 a 12 anos de idade (Foto: Flávio Magalhães/A COMARCA)

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