Canonizada Irmã Dulce; a primeira santa nascida no Brasil

Ana Paula Meneghetti

A cerimônia de canonização de Irmã Dulce Lopes Pontes, a primeira santa nascida no Brasil, foi realizada no domingo, 13, na Praça São Pedro, em Roma, no Vaticano. A celebração eucarística, presidida pelo Papa Francisco, tinha expectativa de receber cerca de 80 mil fiéis, segundo o site Canção Nova, com informações do Vatican News.

Os detalhes da cerimônia foram apresentados na Sala de Imprensa da Santa Sé, na última sexta-feira, 11. Além de Irmã Dulce, outros quatro beatos foram canonizados. Durante a coletiva, os Postuladores das Causas de Canonização divulgaram brevemente as biografias dos cinco novos santos.

Durante sua missão, a baiana viveu para ajudar os mais necessitados (Foto: Divulgação Canção Nova)

O anúncio de sua canonização foi feito no dia 1º de julho, uma manhã de segunda-feira. Desde então, fiéis de todo o país, especialmente de Salvador, na Bahia, onde Irmã Dulce nasceu, em 1914, esperavam pela data. O milagre que a levou à canonização é a cura de José Maurício Bragança Moreira, que ficou cego por causa de um glaucoma grave. Ao sofrer de conjuntivite, colocou uma pequena imagem de Irmã Dulce sobre os olhos, pedindo a sua intercessão. Quando acordou, voltou a enxergar.

Irmã Dulce, no civil Maria Rita, tinha apenas 6 anos quando sua mãe faleceu. Aos 18, entrou para a Congregação das Irmãs Missionárias da Imaculada Conceição da Mãe de Deus onde recebeu o nome de Dulce. “Era o nome da mãe, que perdeu muito cedo”, revelou o vigário da Paróquia Santa Cruz, Alexandre Cortez. O vigário, além de devoto, é também um estudioso da vida dela e de outros santos. Segundo Cortez, o novo nome, recebido na vida religiosa, tem muito a dizer sobre a personalidade da santa. Em português, Dulce significa doce. “Era uma mulher firme, porém de gestos doces”, descreveu.

A religiosa fundou a União dos Trabalhadores de São Francisco, um movimento operário cristão, e o hospital Santo Antônio. Ela faleceu na capital baiana, em 1992, e foi beatificada durante o Pontificado de Bento XVI, em 2011. “Ela não é só a freira que fez caridade. Ela é uma mulher contemporânea. Em uma Salvador (a cidade), extremamente patriarcal, ela mostra essa força feminina”, declarou Cortez.

"O ANJO BOM DA BAHIA"
A Bahia do século 20 estava sob o comando dos coronéis e apresentava uma gritante  desigualdade social. O Estado, junto com o Rio de Janeiro, foi o que mais recebeu escravos. É nesse cenário que a Irmã Dulce começa a aparecer, logo após receber autorização para atuar fora do convento. De acordo com o vigário e estudioso, a ordem religiosa que ela pertencia era muito fechada, até mesmo nas próprias vestes, e não permitia esse acesso externo. “E ela conseguiu. Foi uma inovação”, completou Cortez.

Irmã Dulce iniciou sua obra social na comunidade Alagados, uma região da Bahia onde as famílias viviam, precariamente, em palafitas. Por várias vezes, Cortez contou que ela chegou a cair das estruturas, que eram equilibradas em estacas sobre a enseada dos Cabritos. Durante sua missão, a religiosa viveu para ajudar os mais carentes. “Na época, as pessoas que tinham tuberculose eram praticamente jogadas na rua”, disse o vigário.

Ela, como também foi tuberculosa, resolveu recolher esses doentes. Primeiro, debaixo de um viaduto, e depois para debaixo de uma ponte, próxima a uma igreja. Nos dois casos, Irmã Dulce e seus doentes foram impedidos de ficar. No caso do viaduto, pela Prefeitura. E da ponte, pelo padre. Então, ela seguiu para o Mercado Modelo, perto da Igreja da Conceição e, por fim, recolheu os enfermos no espaço do galinheiro do convento.

“A Irmã Dulce pega toda essa herança do povo. Era uma mulher que lutava pela justiça social. Ia cobrar dos ricos o dinheiro dos pobres”, afirmou Cortez. Certa vez, ela foi até um fazendeiro, que não estava bem financeiramente, e entregou-lhe uma imagem de Santo Antônio. O acordo seria que parte do lucro com a plantação fosse doada para os necessitados. Inexplicavelmente, a colheita foi abundante. Por esse motivo, também era chamada de “Dulce dos Pobres” e “O anjo bom da Bahia”. “Ela tinha essa vocação materna. O povo a via como uma mãe”, acrescentou o vigário.

Além disso, foi uma mulher de muita penitência. Por muitos anos, dormiu em uma cadeira de madeira, doando para o orfanato todas as camas que recebia das pessoas que a visitavam. Para Cortez, a vida de Irmã Dulce foi “heroica”, por lutar contra a incompreensão de seus superiores e enfrentar a sociedade, sem nunca reclamar. “Ela é um mito em Salvador. Todo mundo respeita a Irmã Dulce, todas as religiões (respeitam)”, concluiu.

Beatos que também foram canonizados no dia 13 de outubro
- João Henrique Newman, convertido do Anglicanismo, fundador do Oratório de São Felipe Neri, na Inglaterra;
- Margarida Bays, virgem, Terciária da Ordem de São Francisco de Assis;
- Josefina Vannini, no civil Judite Adelaide Águeda, fundadora das Filhas de São Camilo; 
- Maria Teresa Chiramel Mankidiyan, Fundadora da Congregação das Irmãs da Sagrada Família.

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