Projeto ajuda mulheres com câncer de mama

Ana Paula Meneghetti

Superação e solidariedade. Essas são as duas palavras que definem a personalidade de Ana Paula Scramim de Freitas. Em 2018, aos 40 anos, ela venceu novamente a batalha contra o câncer de mama que, dessa vez, havia se instalado na vértebra de sua coluna e no osso esterno. Após passar por uma grande cirurgia e realizar a radioterapia, Ana ainda segue em tratamento por tempo indeterminado, tomando dois medicamentos injetáveis.

Ana, também em tratamento, organiza e divulga o projeto
(Foto: Ana Paula Meneghetti/ A COMARCA)
Ela até tentou passar uma borracha no assunto todo, mas sabia que deveria fazer algo em prol de outras mulheres. Então, movida pela vontade de formar uma corrente de amor, Ana deu início à ideia “Missão - Exemplo de vida”, organizando e divulgando o projeto Almofada do Coração. “Assim juntas, eu e pessoas voluntárias queremos deixar nosso carinho, acalento e a certeza de que tudo já deu certo”, descreveu.

Em novembro de 2016, veio o primeiro diagnóstico da doença. Em julho de 2017, ela foi submetida a um processo cirúrgico para a retirada total da mama esquerda. No mesmo ano, Ana conheceu o projeto ao ganhar a almofada de uma amiga.

O Projeto Almofada do Coração foi descoberto nos Estados Unidos e divulgado pela especialista em câncer de mama, Janet Kramer Mai, do Erlanger Breast Resource Center, em Chattanooga, Tennessee. Janet, depois de ter passado por uma cirurgia de câncer de mama, em 2002, sentiu a necessidade de colocar algo para apoiar o braço devido à dor e à dormência que ocorrem no pós-cirúrgico.

Várias tentativas foram feitas para achar uma maneira de ficar mais confortável, até que Janet chegou ao formato de coração, que se encaixa perfeitamente à anatomia local. A partir dessa sensação de conforto, ela decidiu que faria o possível para que cada paciente recebesse uma almofada após a cirurgia. Terminado o tratamento de Janet, sua amiga dinamarquesa, Nancy Fries-Jensen, também enfrentou o câncer e aprovou o uso do acessório.

A partir daí, a Almofada do Coração passou a circular em outros países, como Nova Zelândia, Alemanha, Israel, Grécia, Jordânia, Espanha e também no Brasil. No país, o projeto chegou aproximadamente em 2010, por meio da integrante ativa da Sociedade Feminina Missionária da Igreja de Deus, Ondina Almida Posiadlo. Em sua visita à Alemanha, ela se inspirou e participou do trabalho de um grupo de voluntárias. Em 2015, a campanha tomou impulso com o Outubro Rosa e, desde então, vem se espalhando pelo Brasil.

As almofadas são confeccionadas com o intuito de ajudar pacientes que se submeteram à mastectomia (cirurgia de retirada da mama) e já é usada por milhares de mulheres. O coração não é apenas bonito, ele tem funções terapêuticas, pois possui medidas e peso adequados para ajudar no conforto da paciente após o processo cirúrgico.

A almofada foi desenhada para ser colocada embaixo do braço a fim de facilitar seu descanso, aliviando a dor da incisão cirúrgica. Além disso, reduz o inchaço linfático provocado pela cirurgia, diminui a tensão nos ombros, sustentando o braço da paciente até enquanto dorme, e ainda pode ser colocada por baixo do cinto de segurança do carro para proteger contra eventuais traumatismos.

A ideia do projeto é que a Almofada do Coração esteja à disposição de cada paciente já no hospital e que ela receba logo após a cirurgia. Segundo Ana, já foram feitas entregas no Hospital Municipal Tabajara Ramos e São Francisco, em Mogi Guaçu, e no Hospital 22 de Outubro, em Mogi Mirim. O Hospital de Câncer, em Barretos, também já recebeu várias almofadas e agora está solicitando a doação de tecidos para que as voluntárias possam confeccionar o produto a partir do molde. No último domingo, 27, o Clube Mogiano também fez a entrega de cerca de 60 almofadas, produzidas pelas turmas do curso de Artesanato, em um café da manhã, na sede social, a partir das 8h30.

COMO AJUDAR?
Qualquer pessoa pode ajudar o projeto doando os materiais necessários ou o próprio tempo para a confecção das almofadas. Quem se interessar e quiser abraçar a causa, poderá doar a almofada pronta, o tecido 100% algodão, a manta siliconada antialérgica ou o saquinho plástico para armazenamento da almofada pronta. Para isso, basta entrar em contato com a Ana Paula, pelo Facebook (facebook.com/anapaula.scramimfreitas) ou Instagram (@anapaulascramimdefreitas).


As chamadas 'almofadas do coração' têm função terapêutica e ajudam
no conforto das pacientes (Foto: Arquivo Pessoal)
OUTUBRO ROSA
A campanha de prevenção ao câncer de mama foi determinada por lei no Brasil, desde 1990. O objetivo é promover o conhecimento das mulheres sobre como se prevenir da doença, uma vez que, quando descoberta logo no estágio inicial, são maiores as chances de cura. O símbolo do câncer de mama é o laço cor-de-rosa. Ele é, oficialmente, utilizado em todo o mundo na campanha contra a doença, alertando as pacientes para a importância do autoexame e diagnóstico. O laço em si surgiu como símbolo de luta e de esperança. Penney Laingen foi uma das primeiras pessoas a utilizá-lo, no final da década de 70.

Formada em Estatística, Ana estava do outro lado do câncer, na pesquisa. Atuou por seis anos na área oncológica do Hospital A.C. Camargo, em São Paulo. “Eu trabalhava com o câncer de pele e não sabia muita coisa a respeito do câncer de mama”, comentou à reportagem. Acabou deixando o cargo para se dedicar à maternidade. Posteriormente, passou de pesquisadora à paciente e, devido aos tratamentos, também não pôde voltar à ativa, função que vem retomando aos poucos.

Desde 2017, tem como missão ajudar outras pessoas que lutam ou já lutaram contra a doença. Adepta ao esporte, participou do “Pedal pela Vida” para ajudar a Organização Não-Governamental (ONG) Grupo União de Apoio aos Portadores de Câncer (GUPC), de Mogi Guaçu. E, em setembro do ano passado, resolveu fazer uma peregrinação, o Caminho da Fé, em agradecimento à cura, levando consigo diversos lenços de outras mulheres. “Quando, em novembro de 2018, descobri que o câncer havia se instalado na minha coluna”, recordou.

Para Ana, a prevenção e informação são os melhores caminhos. Ela sempre fez acompanhamento dos nódulos mamários, mas somente ao realizar a biópsia de um terceiro nódulo foi descobrir que os outros dois também eram malignos. Hoje, a maior ênfase é dada ao exame de rotina de acompanhamento. Estudos mostram que ultrassom e mamografia são essenciais para a prevenção, juntamente com o autoexame.

“Então, mulheres, não basta fazer autoexame e não ir ao médico. Não fuja por medo. Encare de frente as possibilidades e busque ajuda de quem entende. O especialista em mama é o mastologista. Ah, mas eu vou ao ginecologista. Tudo bem, mas se nos exames aparecer qualquer nódulo, agende o mastologista e peça a opinião dele”, orientou, em sua página na rede social.

Ana acredita que o ideal era que todas as mulheres tivessem acesso à ressonância magnética, pelo fato de ser, reconhecidamente, a modalidade de exame de imagem mais precisa para o rastreamento do câncer de mama em pacientes com alto risco.

Com a mama esquerda já reconstruída, Ana ainda não pensa na reconstrução do mamilo, que pode ser feita por duas técnicas: a tatuagem de mamilo, que esconde a cicatriz, ou a reconstrução com tecido e micropigmentação. “Não tenho problemas de autoestima. Após toda essa rotina de exames, cirurgias e tratamentos, o seio perfeito passa a não ser tão crucial na vida da mulher e, então, passamos a nos aceitar melhor como seres humanos”, afirmou.

PESQUISA
Além do voluntariado e de prestar informações a respeito do assunto em sua página pessoal, no Facebook, Ana também está desenvolvendo uma pesquisa a respeito da “Percepção sobre prevenção e Campanha do Outubro Rosa para o Câncer de Mama entre mulheres de 18 a 75 anos, residentes nas cidades de Mogi Mirim ou Mogi Guaçu”.

O estudo é realizado pela Invitare Pesquisa Clínica, no curso de Capacitação Profissional em Pesquisa Clínica, com término previsto para dezembro deste ano. Os dados serão coletados, analisados através de estatísticas descritivas e de correlação entre as questões abordadas e aplicados em gráficos e tabelas. Por fim, as conclusões e resultados serão divulgados na mídia impressa.

Nenhum comentário:

Leave a Reply

Scroll to top