Médicos garantem controle de superbactéria

Ana Paula Meneghetti

A equipe interventora nos serviços do Sistema Único de Saúde (SUS) da Santa Casa de Misericórdia reuniu a imprensa, na tarde da última terça-feira, 19, para esclarecer as informações sobre o aparecimento de uma superbactéria na Unidade de Terapia Intensiva (UTI). A entrevista foi acompanhada pela secretária de Saúde, Flávia Rossi, e por demais membros da equipe responsável pela intervenção. O assunto veio à tona na noite anterior, durante sessão da Câmara Municipal, quando o vereador Tiago Costa (MDB) apresentou um documento da Prefeitura, não sigiloso, que relatava sobre a disseminação de uma bactéria resistente na UTI do hospital.

Documento apontava disseminação de superbactéria na UTI da Santa Casa (Foto: Flávio Magalhães/A COMARCA)

O diretor técnico do hospital, o médico Vitor Augusto de Andrade, e o infectologista João Paulo Grecco garantiram o controle do germe, denominado Acinetobacter, e afirmaram não haver, atualmente, nenhum paciente na UTI infectado. Eles ainda reforçaram que as cirurgias, exames e outros tipos de procedimentos não estão comprometidos. “Foi falado em mortes. Isso é uma inverdade. As pessoas precisam ter mais embasamento e responsabilidade de levantar uma coisa que agrava a situação. Provavelmente, vão haver pessoas que deixarão de procurar o hospital com medo de algo irreal, e isso sim tira vidas”, argumentou Grecco.

A ata de uma das reuniões do Serviço de Controle de Infecção Relacionada à Assistência à Saúde (SCIRAS), anexa ao material divulgado por Costa, relata que três óbitos, ocorridos na Santa Casa no mês de setembro, tiveram o germe isolado em secreção traqueal. Mas, a mesma ata ainda esclarece que nenhuma das mortes teve  como causa direta a infecção, embora o quadro de saúde dos pacientes tenha sido agravado pela bactéria.

Na documentação encaminhada à 3ª Vara da Comarca de Mogi Mirim, o Executivo, ao solicitar a reposição do quadro de trabalhadores da unidade, explica que, “diante dos inúmeros pedidos de demissão de funcionários que foram contratados pela Irmandade antes da intervenção, a situação da prestação do serviço público de saúde entrou em estado periclitante, chegando ao ponto, inclusive, de haver uma autuação da Vigilância Sanitária (VS), bem como a disseminação de uma ‘superbactéria’, que é causada, principalmente, pela ausência de funcionários suficientes para a limpeza do nosocômio (hospital)”. Em média, na época, 33 profissionais deixaram a Santa Casa.

Além da deficiência na limpeza, outros fatores podem estar ligados ao surgimento desta bactéria, identificada recentemente. Por exemplo, o uso indiscriminado e não racional de antibióticos, o que torna o germe mais resistente, somado à ausência dos exames de cultura para a identificação do bacilo, e a falta de um controle mais rigoroso na entrada e saída de funcionários da UTI.

O QUE É?
Acinetobacter é um germe muito comum em solos. Existem muitas espécies dessa superbactéria e todas podem causar doenças nos seres humanos, mas a Acinetobacter baumannii (AB) é a responsável por cerca de 80% das infecções. Ela está no topo da lista da Organização Mundial de Saúde (OMS) entre as mais perigosas para a saúde humana, podendo entrar no corpo através de feridas abertas, principalmente em pessoas com sistema imunológico fragilizado. O maior risco de contaminação está presente no ambiente hospitalar.

Segundo o infectologista da Santa Casa, as bactérias estão espalhadas por todos os lugares, dentro ou não de um ambiente hospitalar. “Não é um germe criado aqui dentro. Se nós fizéssemos a cultura no solo em geral, iríamos encontrar esse germe”, afirmou Grecco.

Ainda de acordo com o médico, uma bactéria dessa caracterização responde a poucos antibióticos, mas não significa que não há possibilidade de tratamento. Por meio dos exames de cultura, é possível saber qual antibiótico combate determinada bactéria e tratá-la de forma correta. “Então, mundialmente, sabemos que o Acinetobacter pode acometer pacientes internados dentro dos hospitais, mas isso não é algo restrito a Mogi Mirim, existe em qualquer hospital”, alertou.

NECESSIDADE DE FUNCIONÁRIOS
A chegada de, ao menos, 20 novos funcionários colaboraria para reforçar os serviços de limpeza, entre outros, e ainda facilitaria a identificação de novas bactérias. Contudo, dentro do processo de intervenção, há uma série de regras entre as partes envolvidas. Uma dessas regras é a permissão por parte da Justiça do aumento no número de profissionais.

Antes de pedir ao Judiciário, a equipe interventora disse que tentou conseguir essas contratações junto à Irmandade que, mesmo ciente, não adotou as providências necessárias. A última opção foi levar a situação para o Poder Judiciário. A solicitação, que transita na 3ª Vara, já tem o aval do Ministério Público (MP) e uma decisão é aguardada, o quanto antes, pela Administração. “A contratação de funcionários se trataria, em realidade, de mera reposição da estrutura pessoal, necessária para a continuidade de tais trabalhos”, observou o  promotor de Justiça André Luiz Brandão.

FISCALIZAÇÃO NO HOSPITAL
A coordenadora da Vigilância em Saúde, Joalice Penna Rocha Franco, informou que a carência de insumos ocorre desde 2018, quando esteve no local e, dentro do processo administrativo sanitário, também foram detectadas infrações como a falta de cultura para identificar bactérias e falta de antibiótico. “Em qualquer clínica ou hospital, temos a função de fiscalização e de coibir o que pode levar risco à saúde pública”, completou Joalice.

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