Padre Paiva e o nascimento de uma paróquia

Ana Paula Meneghetti

Foram mais de 800 batizados e três mil casamentos. Dos atuais 91 anos, 48 atuou como pároco e foi o primeiro vigário da Paróquia Santa Cruz. A história de vida do Monsenhor Clodoaldo de Paiva, ou simplesmente padre Paiva, como é conhecido na cidade toda, se entrelaça com a da própria paróquia, a qual, por muito tempo, se dedicou.

Em 5 de abril de 1848, foi construída, em taipa, uma capela denominada Santa Cruz do Belém, por um rico e piedoso fazendeiro chamado Marciliano, nome posteriormente dado a uma das principais ruas de Mogi Mirim. Logo, o local transformou-se em um centro de devoção popular. Somente após anos, a estrutura foi demolida e erguida, no mesmo local, uma grande capela pelo Monsenhor José Nardim.

Monsenhor Paiva, hoje com 91 anos, foi o primeiro pároco da Santa Cruz (Foto: Arquivo/A COMARCA)

De acordo com a Diocese de Amparo, responsável pelas paróquias do município, essa segunda capela tornou-se a Matriz provisória da Paróquia Santa Cruz, no dia 25 de outubro de 1959, por determinação do bispo diocesano de Campinas, Dom Paulo de Tarso Campos. A partir disso, a nova paróquia foi desmembrada da Paróquia São José, onde era pároco o Monsenhor José Nardim.

Assim, padre Paiva começou a conduzir os trabalhos na Paróquia de Santa Cruz. Segundo as memórias de Paiva, como era mais jovem, o Monsenhor Nardim pediu que ele cuidasse da Santa Cruz, que ficava em uma área ainda não urbanizada. “A cada 100 paroquianos, 85 moravam em sítios. Onde eu estou aqui (sua residência, no bairro Santa Cruz) era um pasto”, exemplificou.

Na década de 1980, a igreja já não comportava mais o número de fiéis. Então, o antigo prédio foi demolido e construída a atual igreja. Levaram quase cinco anos para que a obra fosse totalmente concluída. “O povo de Mogi não tem igual. É maravilhoso. Olha essa igreja! O povo que fez. Fui muito feliz aqui”, declarou em entrevista ao jornal A COMARCA.

De acordo com padre Paiva, o 25 de outubro foi escolhido pelo bispo Dom Paulo de Tarso por ser também o dia, na época, da celebração da Festa de Cristo Rei, uma importante data festiva do calendário religioso. Desde 1969, quando foi transferida pelo Papa São Paulo VI para o último domingo do ano litúrgico, a festa passou a ser comemorada em 25 de novembro.

Sempre ativo, padre Paiva matinha colunas fixas em A COMARCA, trazendo assuntos e avisos relacionados à paróquia, e falava diariamente no rádio. Além das missas e demais ritos próprios do seu cargo, das tradicionais romarias e festas religiosas, promovia também atividades cívicas para dinamizar o bairro, como a Corrida de Tiradentes, no dia 21 de abril, que sempre contava com a participação do Tiro de Guerra (TG). Ligado fortemente à população, tem a comunidade como sua família. Fazia questão de visitar periodicamente os frequentadores da paróquia, mesmo aqueles que moravam na zona rural.

ESTUDOS E VIDA RELIGIOSA
Paiva parecia já estar predestinado à vida sacerdotal. Nasceu em 6 de abril de 1928, na cidade de Socorro, numa Sexta-feira Santa. “Quando eu nasci, a procissão do Nosso Senhor Morto estava passando em frente de casa”, recordou. Por isso, em documentos não oficiais, ele assina Monsenhor Clodoaldo Nazareno de Paiva. Isso porque, o cartório não registrou o segundo nome.

Aos 10 anos, entrou para o seminário. Em 1954, formou-se padre. E, depois de cinco anos, já estava à frente da Paróquia Santa Cruz. Estudioso e poliglota, fez três cursos superiores; dois na área da Filosofia e um de Direito. Também foi professor de Sociologia pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas (Puc-Campinas), ministrando aulas no curso de Direito. Um de seus alunos foi o ex-governador do Estado de São Paulo, o político Orestes Quércia, falecido em 2010.

Ao longo da vida, recebeu diversas honrarias e homenagens. Foram quatro medalhas de Honra ao Mérito do Exército, a Medalha Presidente João Teodoro Xavier, o Título de Cidadão Mogimiriano, além da nomeação de Monsenhor pelo Papa São João Paulo II e da Rodovia SP-147, que leva seu nome. Esta última e as demais, todas emolduradas e penduradas nas paredes da casa, mostrou pessoalmente à reportagem, que aguardava dentro do imóvel a passagem da chuva. “Agradeçam. Onde há água, há vida. A chuva é o sangue da Terra”, afirmou padre Paiva. Sábias palavras de quem ainda sabe apreciar as coisas mais simples do dia a dia.

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