Médica não trabalhou em UBS no dia em que assinou atestado de vereador

Flávio Magalhães

Informações obtidas pela reportagem de A COMARCA confirmam que a médica responsável pelo atestado concedido ao vereador Samuel Cavalcante (PL) no dia 26 de agosto deste ano não trabalhou na Unidade Básica de Saúde (UBS) do bairro Maria Beatriz nessa data. Também não há qualquer prontuário aberto em nome do parlamentar naquela UBS.

Tais informações foram confirmadas pela Secretaria Municipal de Saúde a partir de um questionamento de A COMARCA. No último dia 7, o jornal publicou em primeira mão que Samuel Cavalcante foi denunciado na Câmara Municipal por supostamente se utilizar de atestados médicos falsos para justificar faltas em ao menos quatro sessões legislativas. Um desses atestados é em papel timbrado da Prefeitura e com carimbo da UBS Maria Beatriz.

Ainda de acordo com a Secretaria de Saúde, a médica em questão atende na unidade exclusivamente o setor de Pediatria, somente às quartas-feiras. Essas informações contradizem o atestado médico, assinado numa segunda-feira – mesmo dia das sessões legislativas – e que determinou o afastamento do vereador por um dia, em razão de um quadro que menciona diarreia e gastroenterite.

Os quatro atestados anexados na denúncia, aliás, são por quadros relacionados a disfunções renais ou problemas gastrointestinais. No entanto, dois deles são assinados pela pediatra e os outros dois por um cardiologista. Três desses documentos são oriundos de uma clínica médica localizada em Pedreira, município localizado a cerca de 50 quilômetros de Mogi Mirim, e foram concedidos nos dias 9 de abril de 2018, 5 de novembro de 2018 e 17 de junho de 2019.

De acordo com o Regimento Interno da Câmara Municipal, faltas justificadas por motivo de doença garantem ao vereador o recebimento total de seu subsídio. Atualmente, os parlamentares são remunerados em aproximadamente R$ 5 mil ao mês.

RELEMBRE
A denúncia contra Samuel Cavalcante chama a atenção para a proximidade afetiva entre o vereador e a médica que concedeu dois dos atestados (a pediatra mantém um relacionamento estável com o parlamentar) e para o fato dos profissionais não serem especialistas nas enfermidades em que Samuel foi diagnosticado. Por isso, pede à Câmara que investigue se os médicos estavam, de fato, de plantão nas datas mencionadas, alegando que há indícios de fraude.

O vereador responde atualmente a um processo na Comissão de Ética da Câmara Municipal por suposta prática de “rachadinha”, isto é, apropriação de parte dos salários de seu ex-assessor parlamentar. Ambas as denúncias foram assinadas por Emanuel Axel Lucena da Silva. A defesa do parlamentar foi protocolada no início do mês.

Vereador apresentou defesa no início do mês à Comissão de Ética (Foto: Arquivo/A COMARCA)


‘É uma denúncia de um bandido’, rebate Samuel, que também ataca a imprensa


Samuel Cavalcante quebrou o silêncio na última sessão legislativa do ano, no dia 9. O vereador utilizou a tribuna da Câmara Municipal pela primeira vez desde que foi acusado de suposta prática de “rachadinha” e pela suspeita de utilizar atestados médicos falsos. Seu discurso foi um ataque ao autor das denúncias, Emanuel Axel Lucena da Silva.

O vereador questionou o currículo de seu denunciante, que se identifica como empresário, mas que em um perfil em rede social se apresenta como ex-diretor de câmaras municipais em cidades do Nordeste, tabelião e investigador, além de estudos em Gestão Pública e Administração. Samuel afirmou que tudo é mentira. “Ele mal terminou o Ensino Médio!”, frisou.

“É uma denúncia de um bandido, irresponsável, que vive de denegrir a imagem das pessoas. Um menino que estava pedindo comida aqui na Câmara por esses dias! Roupa, sapatos... Não tem moradia própria, vive de favor num quartinho dos fundos no Jardim Brasília”, disparou o parlamentar, que disse ainda que o seu denunciante trabalhava como motorista de aplicativo, mas não tinha carteira de habilitação.  

“Toda denúncia precisa ser investigada, mas precisa ter seriedade”, defendeu Samuel. “Porque é muito fácil difamar vereador na internet. Como se corrige isso? Quem zela pela nossa integridade?”, questionou, explicando que encontrou o denunciante tomando café na cozinha da Câmara Municipal. O vereador afirmou ainda que as divulgações das denúncias na imprensa são “uma irresponsabilidade jornalística sem tamanho”.

IMPRENSA
Mas foi pelas redes social que Samuel Cavalcante fez as críticas mais severas. No dia 7, mesmo dia em que A COMARCA publicou reportagem sobre a denúncia dos supostos atestados falsos, o vereador disparou contra a imprensa em uma postagem no Facebook. “Esse picareta [denunciante] procura o jornal da cidade com denúncias mirabolantes. Aí eu pergunto, o que o jornalista de merda faz? Publica a matéria mesmo sabendo que é mentira! Dá nojo esse desespero para vender jornal”, escreveu.

O vereador, utilizando seu perfil na rede social, também deixou um comentário na postagem da capa do jornal A COMARCA. “Vocês são um bando de aproveitadores! Estão noticiando uma mentira e sabem disso! Imprensa covarde e mentirosa, fazem qualquer merda para venderem jornal! Vocês são uma vergonha!”, postou. 

Em Editorial publicado no último dia 14, A COMARCA afirma que noticiou os fatos com seriedade e profissionalismo. “Quem mente é o vereador, quando diz que este semanário possui caráter ‘aproveitador’ e que publica reportagens apenas ‘para vender jornal’, desrespeitando também os milhares de leitores que A COMARCA atinge semanalmente”, destacou o jornal.

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