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Amor de cemitério

Diego Ortiz

A história de amor entre o comerciante Jonaldo Marciano, o Paraná, de 61 anos, e a aposentada Letícia Pedro dos Anjos Diniz, de 67, poderia ser uma deslumbrante obra fictícia, mas se trata de um caso real responsável por fascinar quem conhece a trajetória da relação nascida em um ambiente inusitado. Notabilizado como cenário de encerramentos, o cemitério se tornou o marco inicial da relação entre Paraná e Letícia. O desfecho foi tão especial que o próprio Paraná define a relação como “um amor de cemitério”. “Eu não ponho o cemitério como onde termina, ponho como onde começa e termina. Ali está o começo, que são os nossos pais, e vai estar o fim. E começou nosso amor ali, está tudo ali dentro”, reflete Paraná.

Nascido em Floristópolis-PR, Paraná chegou a Mogi Mirim na década de 90. Já Letícia é natural de Natal-RN e está há cerca de 40 anos em Mogi. Ambos se conheceram no Cemitério Municipal quando iam quase diariamente visitar os túmulos de seus companheiros falecidos. Curiosamente, ambos faleceram pela mesma doença, um câncer no fígado, e fizeram tratamento na mesma época, no mesmo médico, na Unicamp, em Campinas, onde Paraná e Letícia iam como acompanhantes, mas nunca se encontraram no hospital.

O marido de Letícia, com quem foi casada por 23 anos, morreu em dezembro de 2007. Desde a morte, Letícia passou a ir praticamente todos os dias ao túmulo. Em julho de 2008, com a morte da esposa, Paraná, casado por 16 anos, passou a fazer o mesmo. Depois de muitos dias em que apenas se cumprimentavam com um “bom dia ou boa tarde”, Paraná contou que ia lá porque a colega dela havia falecido. Letícia havia trabalhado com a ex de Paraná e a admirava. Paraná somente havia conversado com Letícia uma vez, quando tentou comprar um freezer. Mas a tentativa não teve sucesso. “Ela não me vendeu, mas depois veio ela, com o freezer e tudo”, brinca Paraná.

Letícia e Paraná iam quase diariamente visitar os túmulos dos ex-companheiros e acabaram se conhecendo (Foto: Diego Ortiz/A COMARCA)
Na época, Letícia não entendia como uma mulher tão bonita poderia ter casado com Paraná. Mais do que isso: residia perto dele, na Santa Luzia, mas evitava passar em frente do seu bar. “Achava que eu era um vagabundão”, conta.

“Eu não podia nem ver a criatura, até falei pro meu marido: minha colega é tão bonita, casada com aquele homem horroroso, parece pinguço”, confirma, explicando, ter mudado de opinião ao conhecê-lo: “Não era a pessoa que eu pensava, é uma pessoa boa, sofrida”. Depois do início do romance, por um período, iam juntos ao cemitério e cada um ia ao túmulo do ex. Hoje, vão em datas especiais. “As pessoas têm muito medo, mas ali só tem paz”, salienta Paraná.

UNIÃO
A maneira com que se conheceram é um dos segredos da união. Quando viúvos, dizem ter aparecido vários interessados em paquerá-los, mas não queriam. Acreditam que os ex-companheiros “mexeram os pauzinhos” espiritualmente para juntá-los, pois antes de morrerem falavam para encontrarem uma pessoa boa. “Não sei explicar, acredito em destino”, diz ela. “Ela é o vinho que estava faltando no meu cálice, um presente de Deus”, reverencia Paraná.

Casal acredita no destino e em ajuda espiritual dos ex-companheiros para juntá-los: amor inesperado (Foto: Diego Ortiz/A COMARCA)

Festa deu empurrãozinho ao romance

Depois de muito se verem no cemitério e apenas trocarem cumprimentos, a revelação de Jonaldo Marciano, o Paraná, sobre a morte de sua esposa e ex-colega de trabalho de Letícia Diniz, abriu caminho para começarem a conversar eventualmente. Meses se passaram, até que um dia Letícia perguntou se poderia passar no bar de Paraná para tomar uma cervejinha e recebeu resposta positiva. Mas ela disse ter apenas falado, sem marcar nada, e ele nem esperava a visita. Meses depois, por acaso ou destino, Letícia acabou realmente indo ao bar. Na época, havia diminuído as idas ao cemitério e passou a encontrar cada vez menos Paraná, que seguia indo quase todos os dias: “Eu fazia coroa, homenagem, tirava foto, estava obcecado, a única coisa que eu tinha na vida era ali para desabafar”. 

Em dezembro de 2008, uma festa apenas com jovens foi realizada na casa de Letícia e o filho pediu para a mãe não aparecer até a noite. Ela foi à casa de uma amiga e, depois, a Conchal em um pesqueiro. Voltou a Mogi e, como ainda rolava a festa, visitou um casal de amigos. Depois, enquanto passeava pelo bairro rumo a outra amiga, entrou na rua do Paraná´s Bar e lembrou da cervejinha. Perguntou se o dono estava lá e Paraná apareceu. Sentaram, tomaram Coca-Cola e trocaram telefones.

Questionados se já teria pintado um clima, respondem que era amizade. Mas Letícia admite ter sentido algo e contou do encontro ao ex-sogro que a incentivava a conhecer alguém, mas ela não queria mais se relacionar. Ele garante que não pensava em uma nova mulher. Tempos depois, Letícia estava com amigas no Star Lanches e ligou para Paraná, que foi e ambos continuaram trocando telefonemas. Um dia, em uma quermesse, diversas mulheres queriam a companhia dele, lhe serviam pratinhos, mas ele se sentou com Letícia. “Parecia um presidente, todas querendo atender ele”, recorda.  

Na ocasião em que se encontravam no cemitério, Paraná chegava de bicicleta e Letícia ia de carro. O comerciante não sabia dirigir. Em homenagem à ex-mulher que queria vê-lo dirigindo, resolveu entrar na autoescola e foi reprovado várias vezes. Com a amizade, Letícia passou a ajudar Paraná a aprender. Até que ele foi aprovado. Foi na hora da notícia da aprovação, que rolou o primeiro beijo, no bar, em um dia chuvoso de julho de 2009. “A moça ligou e falou pra ele que ele estava apto a dirigir. Ele me deu um abraço e me beijou. Depois, a gente começou a namorar”, lembra. 

Mas nem tudo foram flores. Paraná, agora casado pela quinta vez, encontrou resistência de alguns enteados de Letícia, de São Paulo. Já o filho de Letícia aceitou bem. Os oito filhos de Paraná, com duas mulheres diferentes de relações anteriores ao da esposa falecida, também aceitaram bem Letícia. Após um período de namoro, Paraná preparou uma surpresa na festa de um amigo e a pediu em casamento. 

O casamento foi em dezembro de 2010, com festa de 2 dias em uma chácara, que tinha 220 convidados, mas recebeu mais de 300 pessoas. Houve até ônibus de curiosos para curtir o chamado por amigos de “casamento do ano” . Foi necessário reforçar o bufê e até sobrou cerveja. 
Então, passaram a morar juntos. Ambos são bem-humorados e se dão muito bem. Gostam de festas, cinema e viagens. Hoje, ela até ajuda no bar, onde evitava passar em frente. 

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