!


A guerra vencida por Patrícia: um relato de quem se recuperou da Covid-19

Diego Ortiz

Depois de ficar próxima de ser entubada na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do Hospital 22 de Outubro, para desespero dos familiares, que viveram dias angustiantes temendo sua morte, a psicóloga Patrícia Aparecida Abrucez Bertanha, de 48 anos, conseguiu reagir, venceu batalhas diárias e celebrou a vitória na guerra contra a Covid-19. Com os sintomas iniciais sentidos no dia 29 de março, Patrícia sofreu com idas e vindas ao hospital, tendo sua situação tratada como suspeita de dengue até 8 de abril, quando foi internada e suspeitou-se de Covid-19. Foram 16 dias de hospital, incluindo sete na UTI, até a renovadora alta de 24 de abril. Hoje, se sente em uma segunda vida. Em entrevista à reportagem de A COMARCA, Patrícia detalha as sensações na luta pela sobrevivência, as dores provocadas pelo devastador vírus e explica como o controle emocional e o pensamento positivo foram essenciais em sua recuperação. 

Como foi, após ser internada no hospital, ir para a UTI?
Quando fiquei sabendo que iria para a UTI, pensei em várias coisas. Primeiro no meu filho, Luciano, depois, em toda minha família de uma vez e, na verdade, pensei que ia morrer. Porque muitas pessoas estão morrendo quando vão para a UTI em função de um vírus devastador. Falei: pronto, chegou minha hora. Sempre consciente, fui conversando e cheguei lá bastante ansiosa, preocupada. Cheguei a ter momentos de desespero. O que me deixava mais tranquila era pensar que se fosse minha hora, meu pai (o falecido jornalista Valter Abrucez) estaria ali comigo, em todo momento, senti meu pai comigo e toda espiritualidade comigo. Então, vou tranquilamente cumprir meus desígnios em outro plano. Se não for minha hora, tenho que batalhar. Fiquei pensando. E tinha duas opções naquele momento: ou desistia ou lutava. E como não sou de desistir, lutei. É muito difícil controlar seus pensamentos para não pensar coisas ruins, mas eu precisava fazer isso porque queria viver. Fui pensando mais positivamente, tendo muita fé, rezava muito e fui me fortalecendo a cada minuto.

Como foi, psicologicamente, a sequência de dias internada?
Tinha momentos que dava muita ansiedade e a ansiedade deixa a respiração mais ofegante, era ruim. Então, começava a pensar coisas boas e me controlava. Isso nos dois, três primeiros dias. Quando o oxigênio começou a baixar, porque eles estavam vendo que eu tava mantendo uma boa saturação, comecei a ficar ainda mais fortalecida. A cada diminuição do oxigênio, era uma vitória. Fui melhorando meu ânimo, com a ajuda daquela equipe maravilhosa da UTI, conversava, dava muito apoio, médicos muito atenciosos.  Quando entravam, me falavam como estava, dos meus exames, a saturação...

Como era ficar isolada, sem visitas e celular?
Ficar sem celular na UTI é terrível, você é totalmente isolada do mundo, dos familiares, ficar sem ver, sem saber notícia, eu queria saber de todo mundo, do Luciano, do Robson (marido), da minha mãe, da irmã, irmãos, todo mundo. Eu ficava pensando como todo mundo estava, preocupados comigo, foi difícil, mas eu precisava concentrar na minha fortaleza. A todo momento, eu ficava muito concentrada com isso, não assistia televisão, televisão ficava só ligada para eu não me sentir muito sozinha. Hoje, eu penso, que foi muito bom não poder ir para a UTI o celular. É melhor.

Como foi a sensação da recuperação, de deixar a UTI?
Quando fui pro quarto, foi emocionante, porque senti que eu tinha vencido uma batalha, mas sabia que tinha mais uma, que era o desmame do oxigênio. E começou todo o processo do desmame, que não é fácil também. Não é fácil ir diminuindo o oxigênio, manter a saturação, elevar, foi um processo muito lento. No mesmo dia, o oxigênio abaixava, diminuía e aumentava de novo e assim foi até dois dias antes que eu saí. O médico falou: vamos tirar e ver como você fica. A gente tirou o oxigênio porque eu já tava com só um litro, me senti superbem, sem ficar ofegante. É um processo de muita paciência, serenidade, porque tudo pode levar você a ficar mais tensa e a tensão mexe com todo seu organismo, respiração, saturação. O momento mais emocionante no quarto foi quando recebi o celular de volta e vi as inúmeras mensagens que eu tinha recebido enquanto eu tava na UTI. Foi muito gratificante, monstruosamente dadivoso. Saber que pessoas que eu não conhecia oraram por mim, pessoas que há muito tempo estavam longe, que estavam me procurando, querendo saber de mim, não tem como mensurar. Serei grata eternamente. Vi essas mensagens no primeiro dia, não consegui ver todas, foi muito cansativo porque chorei muito, no outro dia eu fui terminando.

Você entende que estava tomando as precauções necessárias? 
Tomei todas as precauções na época orientadas, mas, naquela época, não era orientação do Ministério da Saúde que se usasse máscara a todo momento.

Poderia abordar a precaução com o seu filho de deixá-lo isolado por você e o seu marido trabalharem fora de casa? 
Desde quando foi decretado o isolamento social, 13 de março, ele (filho) já ficou com minha mãe, foi o último dia de aula, ele ia ficar lá direto para não precisar ir e voltar todos os dias, correr risco com a gente e não levar nenhum risco também pra minha mãe por ela estar no grupo de risco. Isso me deixou tranquila com relação ao Luciano.

Você já temia que algo poderia ocorrer? 
Olha, é complicado falar, mas eu achava que ia acontecer, não sei se era uma intuição, mas achava de alguma forma que ia pegar, mas era uma intuição muito tranquila, continuei vivendo minha vida, sem pânico, me passou pela cabeça e acredito que passa pela de muita gente.

Você chegou a ter medo da morte? 
Não tenho medo da morte, eu como espírita, acredito que a gente desencarne no momento que nos é dado e a grande questão não é o medo da morte, é quem você deixa aqui, principalmente a gente que tem filho. Meu primeiro pensamento quando falaram muito delicadamente que eu ia pra UTI era o Luciano, em deixar ele, não ver crescer, como ele ia ficar sabendo que eu tava ali, esse era meu medo, medo da minha mãe morrer quando soubesse que eu tava na UTI, fiquei com muito medo disso, minhas duas maiores sensações.

O reiki te ajudou?
Fiz o reiki quando eu saí da UTI, fiz muito a todo o momento, me ajudou muito também com relação à minha ansiedade, respiração, saturação, porque nada mais é do que toda energia que podemos receber, vibrações positivas, tudo que favorece para que você se fortaleça é importante.

Como foi ser aplaudida no hospital no momento de ir embora?
Foi extremamente emocionante, o doutor Celso Marcondes foi até o meu quarto, um médico muito humano, atencioso, sempre muito cauteloso, superanimado com minha alta. A emoção já começou daí e quando eu saí do elevador que vi toda aquela equipe feliz comigo e me aplaudindo. Teve um enfermeiro da UTI que falou: lembra que te falei que você ia vencer, que é vitoriosa? Lembro e todos sempre deram muita força, tenho muita gratidão. Chorei bastante, nunca vou esquecer.

É a sensação de nascer de novo? Como foi voltar para casa?
Eu senti que dia 24 de abril que tive alta, eu renasci, foi um nascimento como adulta. Voltar pra casa, nossa, foi um renascimento mesmo. O alívio de saber que você está em casa e venceu é enorme. É muito especial.

O que mudou depois de superar a doença? 
Ainda estou descobrindo o que mudou, sei que me sinto mais fortalecida, eu já valorizava muito a vida, valorizo hoje muito mais os momentos, as pessoas, a gratidão não cabe no meu peito. Isso muito mudou. E tenho descoberto muitas coisas e ainda muitas coisas estão confusas, mas aos poucos, a gente vai descobrindo e elaborando, acredito que leve um tempo ainda para que tudo isso seja elaborado.

Você está mais leve, aliviada para manter contato com as pessoas e ir aos lugares, andar pela cidade? Por outro lado, quais cuidados procura tomar até pelo risco de transportar o vírus mesmo não estando mais contaminada?
Eu continuo tomando as mesmas precauções, porém, confesso que me sinto mais aliviada. Mas uso máscara na rua, estou isolada no sentido de acompanhar todo esse processo com todos. Tomo todas as precações, mas voltei a trabalhar já na semana passada. Dizem realmente que a gente leva pela roupa, sapato, objetos, então, aqui em casa a gente toma as mesmas precauções, porque o Luciano de final de semana tem vindo ficar comigo. Eu limpo a casa antes dele vir com água sanitária e a gente toma todas as precauções quando o Robson chega para estar livre disso tudo.

O que os médicos têm te falado do risco de ser contaminada novamente? Você tem medo? Dá vontade de curtir a liberdade?
Medo de pegar de novo, vou ser bem sincera, não tenho, a gente ainda não sabe como funciona, há varias opiniões divergentes, é tudo muito novo, mas não fico pensando nisso, não sou uma pessoa negativa. Dá vontade de aproveitar, sim, mas a gente não tem certeza de nada.

Na sua opinião, as pessoas estão tomando os devidos cuidados e levando a Covid-19 a sério como deveriam? 
A sensação que tenho é que as pessoas se acostumaram a ele, ele está aí, ninguém consegue exterminá-lo e precisa-se viver, trabalhar, então, vamos viver com ele ao redor. Penso que aqueles que têm essa ideia que tomem as precauções, porque ninguém é melhor que ninguém para não pegar.

Quais conselhos você dá para quem acredita que não corre risco e, caso se contamine, será como um resfriado? 
É uma doença que merece muito respeito, um vírus que te arrebata inteiro, é muito doloroso quando você é diagnosticada no estado grave, síndrome respiratória aguda grave, que foi meu caso, ela dói bastante, incomoda muito, é como se você estivesse presa dentro de uma redoma de aço, mexer dói, respirar dói, falar dói, comer dói, tudo dói. É um vírus que realmente te arrebata inteiro. Não achar que dá para viver com ele como dá pra viver com uma gripe comum porque ninguém sabe como vai pegar. Quando pegar, como vai pegar, ninguém sabe se vai ser uma gripinha, se assintomático, se aguda grave, se vai ser entubado, ninguém sabe nada. E se pegarem, o que tenho para dizer? Que lutem, porque é muito fácil desistir num momento desses, a primeira coisa que vem na cabeça é desistir, porque é fácil, você tem que lutar contra tudo aquilo que tá fazendo você sofrer, precisa ter muita fé, acreditar muito, querer muito. E ainda assim, a gente nunca sabe se isso vai ser condição pra que continue vivendo, só vai saber lutando. É isso que deixo par as pessoas que, de repente, pegarem e a gente sabe que muita gente vai acabar contraindo esse vírus, a gente não pega o vírus, eu falo que o vírus pega a gente. Então que lutem com todas as armas da fé, dos bons pensamentos, das boas vibrações, acreditando muito que podem se salvar. Na hora que a gente tá na iminência da morte, todos somos iguais, ali não se tem dinheiro, não tem carro, casa, nada, é tudo pó. É só nós por nós e Deus ali, para quem acredita. Somos todos iguais, viemos para cumprir alguns desígnios de Deus. É isso que eu falo.

Recuperada, Patrícia vivencia fase de descobertas: “Ainda, muitas coisas estão confusas, aos poucos, a gente vai descobrindo e elaborando, acredito que leve um tempo ainda para que tudo seja elaborado” (Foto: Arquivo pessoal)


Nenhum comentário:

Deixe um comentário

Scroll to top