!


‘A vida está voltando, mas não como antes’

Flávio Magalhães

O vírus da Covid-19 já infectou, em números oficiais, mais de 6 milhões de pessoas em todo o planeta. No entanto, a particularidade desta pandemia é que, nos esforços para reduzir sua velocidade de contaminação e consequente letalidade, outras centenas de milhões de pessoas tiveram as suas vidas afetadas.

É o caso da jornalista mogimiriana Lilian Guarnieri, que esteve na Alemanha até o final de maio. Do outro lado do Atlântico, ela não se contaminou com o novo coronavírus, mas precisou se adaptar a uma nova rotina. “Minha vida social foi a zero”, resumiu. “Isolamento social morando sozinha num país que que não é o meu foi desafiador”, contou para A COMARCA.

Antes de voltar para casa, Lilian pôde acompanhar a retomada das atividades no país europeu, mas constatou que o afrouxamento das medidas restritivas não significou um retorno à normalidade. “A vida está voltando, mas não como antes”, relatou. De volta ao Brasil, que ainda não chegou ao pico de contaminação, a jornalista comparou brasileiros e alemães no combate ao vírus e contou que continuará com alguns novos hábitos adquiridos nestes tempos de pandemia. “Tenho sabonete líquido em todas as pias”, revelou.

O primeiro caso de Covid-19 na Alemanha foi diagnosticado no final de janeiro. Quais foram as primeiras medidas adotadas pelo governo alemão em relação a essa doença?
No começo, parecia que a epidemia era só na Itália. Em poucos dias, a Áustria queria fechar as fronteiras com a Itália e isso gerou uma polêmica na União Europeia. Espanha e França começaram com alto número de contaminação. Foi questão de semanas para que a própria UE tomasse providência de cancelar todos os voos internacionais não-necessários. Na Alemanha, a aceitação das novas medidas foi massiva porque estávamos acompanhando de perto o caos dos países vizinhos. Um episódio dramático foi o que ocorreu com o Reino Unido, eles não adotaram nenhuma medida de isolamento social até que o primeiro-ministro Boris Johnson foi infectado. Agora, após o pico da pandemia na maioria dos países europeus, a Suécia está com número de mortes altíssimos porque os suecos não adotaram nenhuma medida para prevenir a contaminação apostando na imunidade de rebanho. Estratégia bem arriscada.

O quanto as medidas tomadas em função do novo coronavírus afetaram a sua rotina?
Minha vida social foi a zero. Apesar de ainda ir ao escritório para trabalhar, eu parei de encontrar amigos, de ir à academia, reduzi a ida ao supermercado, como a grande maioria. Mas isolamento social morando sozinha num país que que não é o meu foi desafiador. Tenho bons amigos que me ajudaram a passar por isso, me ligavam, interagiam por redes sociais, o digital virou tudo, já que o real estava difícil de encarar.

Há algum novo hábito pessoal, adquirido nesses tempos de pandemia, que você pretenda levar com você quando tudo isso passar? Independentemente de morar no Brasil ou na Europa.
Sim. Tenho sabonete líquido em todas as pias, tanques da casa para lavar as mãos sempre. Borrifar álcool 70% em objetos pessoais que saem de casa tipo bolsa, sapato, casaco. Eu já tirava os sapatos ao entrar em casa, estou tentando trazer essa moda para minha família em Mogi, mas na Europa é bem comum. Ninguém traz sujeira da rua para dentro de casa. Dica: facilita a limpeza do chão. Até o uso de máscaras para visitar recém-nascidos e avós acho uma prática respeitosa, nem me incomodo tanto avaliando o benefício. 

E como foi a quarentena alemã? Mais restritiva ou flexível? Como foi a adesão da população? Aqui no Brasil percebemos um "cansaço" geral depois de algum tempo.
O lockdown não foi total como na Itália, Espanha, França, Portugal. Podíamos caminhar ao ar livre mantendo distanciamento social de 1,5 metro, no máximo em duas pessoas, sem gerar aglomeração. Nesse aspecto, foi bem mais tranquilo. Mas o alemão sabe obedecer a instruções. No geral, todo mundo adotou medidas bem duras de isolamento, seguindo as orientações da chanceler Angela Merkel. Foi bem marcante no dia que a Alemanha anunciou o fechamento do comércio, cortou transporte público para o mínimo e autorizou trabalho fora de casa apenas para serviços essenciais. A chanceler fez um pronunciamento em TV aberta. Ela faz anúncios públicos direcionados ao povo alemão apenas uma vez por ano, no Ano Novo. Apenas esse gesto foi chocante e os alemães entenderam que a situação era grave. Nós estrangeiros sempre procuramos nos adequar à cultural local, com respeito e obediência também. 

A grande sorte dos europeus foi que os momentos mais restritivos da pandemia ocorreram no final do inverno, início da primavera, que estava bem frio ainda, com temperaturas abaixo dos 10-15 graus. Então é mais confortável ficar em casa, com aquecimento, do que nas ruas. Agora que as regras do isolamento estão afrouxando, a temperatura também está subindo. Uma baita sorte também.

E você, como lidou particularmente com a quarentena? O fato de estar em um país estrangeiro, com culturas diferentes, já é um desafio em si. Com o isolamento, como ficou?
Eu fiquei pensando em voltar a todo o momento. Ao mesmo tempo que me ocupava com o trabalho, pensava que nada vale a pena se em momentos como esse eu não pudesse estar com minha família. Minha irmã estava grávida, meu sobrinho nasceu no final de maio, consegui chegar a tempo para o nascimento, o que foi uma grande alegria e alívio. Mas os desafios de manter o mínimo contato social ainda continuam.

E como era a comunicação com sua família? 
A comunicação continuou como sempre, via vídeo chamada. O medo era de não poder voltar, de fecharem as fronteiras e cancelarem voos vindos da Europa, como os Estados Unidos fizeram. O meu voo foi remarcado duas vezes, só na terceira vez, consegui a confirmação. 

Qual foi o momento em que você percebeu que a situação seria realmente séria na Europa? Foi quando os casos explodiram na Itália, por exemplo?
A ficha caiu quando, no meu trabalho, as pessoas foram realocadas. A maioria foi trabalhar remotamente, quem tinha que ir ao escritório, como era o meu caso, a empresa montou um esquema para manter o mínimo da operação possível de cada departamento funcionando nas três unidades em Berlin. Caso uma das unidades tivesse que fechar completamente, as outras supririam e o funcionamento seria mantido. Também foi proibido manter contato com os colegas das outras unidades. Achei um baita esquema de segurança para operação, implantado completamente em uma semana após o anúncio das medidas restritivas. 

Houve também na Europa o embate entre Saúde e Economia, que ganhou força no Brasil? Como os europeus lidaram com isso?
Sim e não. Claro que a preocupação econômica sempre existiu, mas o entendimento da crise pandêmica prevaleceu na gestão da crise do coronavírus. O debate da pandemia não virou uma guerra política como aqui. O governo alemão também foi bem rápido ao anunciar auxílio econômico às empresas e aos autônomos. Tanto a redução de jornada quanto o auxílio aos autônomos foram feitos em tempo recorde. Para se ter ideia, ouvi relatos de que autônomos que se enquadraram nos critérios do auxílio emergencial receberam o valor para 3 meses em 48 horas após o cadastro, que também foi simplificado. Se não me engano, todos os autônomos receberam um auxílio de cinco mil euros para três meses.

Outro aspecto é cultural. No geral, os alemães poupam dinheiro, pagam todas as contas à vista, então não existem parcelas no cartão de crédito, isso ajuda muito a lidar com redução salarial por alguns meses.

Desde 15 de abril, os bares e restaurantes puderam reabrir, com restrições. Eu liguei para fazer uma reserva num restaurante para finalmente jantar fora após quase 3 meses comendo a minha comida – que não é tão ruim assim. Dos dois primeiros estabelecimentos, recebi a informação de que eles não reabririam até 10 de junho, que ainda não estavam seguros. Consegui o jantar num restaurante italiano, com mesas a mais de três metros distantes uma das outras, sem cardápio, os garçons trouxeram uma lousa e a apoiaram numa cadeira. Pedi azeite de oliva e fui informada de que não poderiam trazer porque poderia ser uma forma de contaminação. A vida está voltando, mas não como antes.

Somente o Estado de São Paulo tem quase o mesmo número de óbitos que a Alemanha, mesmo com o fato de que a população alemã é quase o dobro da paulista. Por esses e outros exemplos, a Alemanha passou uma imagem de modelo no combate à pandemia. Você, que morou lá, concorda com essa imagem? Acredita que isso se deve a quê?
A Alemanha tem um dos melhores sistemas públicos de saúde do mundo. Eles controlaram o número de leitos de UTI por número de infectados, os alemães são lógicos, eles entenderam que era uma “guerra” e agiram rápido. Eles sempre tiveram mais capacidade de atendimento do que demanda. O que de um lado é seguro, de outro é egoísta quando se tem países vizinhos precisando de socorro. Essa foi uma discussão grande entre os imigrantes. 

Voltando ao Brasil, imagino que seja inevitável a comparação. Qual diferença ou semelhança mais te chamou a atenção entre a rotina de brasileiros e alemães nesse período de pandemia?
Máscara abaixo do queixo. Pra quê? Gente parada conversando na rua. Parece que não entenderam a gravidade. Como eu disse, os alemães respeitam bem mais as orientações. As regras eles cumprem com certeza. Amigos não se visitam, as pessoas fizeram compras pra semanas para não sair de casa com frequência. A gente deu o jeitinho brasileiro até nisso. Não parece estar funcionando. 

Outra comparação. Como estão as regras e cuidados nos aeroportos de ambos os países?
Como em todo lugar, as regras são de usar máscara obrigatoriamente. Além disso, indicações para não embarcar se tiver qualquer sintoma de tosse, febre, dor no corpo, falta de ar, etc. Poucas companhias aéreas mediam a temperatura corporal antes do embarque, não foi o meu caso. Mas ouvi uma mensagem de que, se algum passageiro fosse diagnosticado com Covid-19, para informar a companhia aérea e todo o voo seria notificado. 

Eu fui extremamente cautelosa, usei máscara e protetor facial o tempo todo, troquei de roupa, usei álcool e spray desinfetantes a todo o movimento, onde encostava. Chegando aqui em Mogi, aguardei cinco dias em isolamento domiciliar e fiz o teste do Covid, felizmente deu negativo. 

De maneira geral, as pessoas, seja no Brasil ou na Europa, estão levando a doença a sério?
As teorias de conspiração existem tanto aqui quanto lá. Mas lá, na dúvida, eles obedecem. É a grande diferença de se ter um líder forte no comando do país.

Alexanderplatz, a grande praça aberta e utilizada como terminal de transportes públicos no centro de Berlim ficou praticamente vazia após a decretação de quarentena na Alemanha; adesão da população ao isolamento social foi massiva naquele país

Nenhum comentário:

Deixe um comentário

Scroll to top