!


Humor na pandemia

Ana Paula Meneghetti

Quando um inesperado alerta de quarentena por conta de uma pandemia é responsável pela união do humor e talento de dois artistas brasileiros, não tem como dar errado. Foi assim que o casal Pamella Machado e Marcelo Laham, passando o confinamento junto, começou a produzir vídeos, gravados e editados pelo celular, para o Instagram. A ideia, que tinha como objetivo manter a sanidade mental da dupla e, sobretudo, divertir os seguidores da plataforma, ganhou uma repercussão, até então, impensada.

A paródia (releitura cômica de alguma composição literária, que frequentemente utiliza ironia) da canção “Vejo uma porta abrir”, da animação musical Frozen, um dos clássicos Disney, “explodiu” no meio digital, principalmente após o youtuber Felipe Neto ter compartilhado o conteúdo e postado, em sua conta no Twitter, um comentário, classificando o vídeo como “um dos melhores do ano”.

Na mesma postagem, Neto ainda disse que os atores merecem um Oscar, destacando o brilhantismo, o talento e o humor para mostrar a realidade de parte da população do país. “Fiquei super feliz! O Felipe Neto é uma das pessoas com mais inscritos e seguidores do Brasil. Ver nosso vídeo compartilhado por ele, de forma espontânea e com aqueles dizeres, foi um alegria imensa. E me rendeu bastantes seguidores no Instagram”, revelou Pamella.

Já são cerca de oito milhões de visualizações nas redes sociais, sem contar os números de compartilhamentos no Whatsapp. “Por mais que reconhecêssemos a qualidade do vídeo, jamais pensamos que estouraria assim. Hoje, já estamos começando a focar também em outras plataformas como Youtube, TikTok e Facebook”, comentou a atriz.

Além do youtuber, vários amigos artistas e a Mídia Ninja (uma rede de comunicação livre que busca novas formas de produção e distribuição de informação) também compartilharam o vídeo. Mais tarde, quando a dupla achou que nada mais aconteceria, o jornalista mineiro Bruno Sartori fez uma versão da filmagem com o título "Viúva Cloroquina e o Senhorzinho Mata", usando o “deepfake”, ou seja, uma técnica que usa inteligência artificial para combinar imagens.

“Colocando os rostos do presidente Jair Bolsonaro e da ex-secretária da Cultura Regina Duarte, no lugar dos nossos. Ficou incrível! Desde então, percebo mais visibilidade ao meu trabalho, não só do público em geral, mas de pessoas da classe artística”, afirmou Pamella.

Interpretada por Pamella Machado e Marcelo Laham, paródia da canção "Vejo uma porta abrir", da animação Frozen, clássico da Disney, 'explodiu' no meio digital, com milhões de visualizações (Foto: Reprodução Instagram)

QUARENTENA: HORA DE REINVENTAR
Namorados há mais de um ano, Pamella e Laham moram separados, mas resolveram passar esse momento de quarentena lado a lado. A decisão, acertada, vem divertindo e, mais importante que tirar sorrisos e gargalhadas, é fazer refletir e conscientizar as pessoas diante de uma realidade tão complexa. “Estávamos na casa dele quando surgiu o alerta. Ele falou para eu ficar e eu fiquei. Os dias foram passando e creio que gravar vídeos caseiros sobre e na quarentena foi a forma que encontramos de mantermos a mente sã”, completou a atriz.

A aproximação e amizade com Laham aconteceu em 2018, por meio do Instagram, quando foi convidada pelo ator para gravar um episódio com o "Embrulha Pra Viagem", um canal do Youtube do qual sempre foi seguidora e fã. “Descobrimos uma sintonia muito forte nos vídeos juntos. Temos um humor parecido e produzimos conteúdo muito bem em parceria. Aliás, ele é uma grande inspiração pra mim como ator”, contou.

Depois dessa participação, Pamella foi chamada pelos outros sócios do canal para outras gravações. O vídeo “A Mulher do Waze” foi um divisor de águas na carreira; abriu portas e deu visibilidade à atriz, “além de eu amar imitar a voz do GPS!”, confirmou.

Hoje, aos 26 anos, a artista pensa em formas de se reinventar em meio à pandemia, já que é evidente a impossibilidade de entrar em cartaz com uma peça ou começar a gravar uma novela, por exemplo. Por outro lado, garante estar feliz pelas oportunidades de publicidade, testes para trabalhos futuros e eventos on-lines. “Recentemente, fiz uma Live com o ator Joaquim Lopes (Joca) em que eu dava orientações de saúde pública, fazendo a voz da ‘Mulher do Waze’. Foi muito divertida”, destacou Pamella.

CARREIRA E FAMÍLIA
A atriz, também cantora, compositora e violeira, acredita que toda essa vertente artística tenha surgido ainda na infância. Cresceu cantando em coral, fazendo aulas de dança, com o saudoso Luís Ribeiro da Silva, em Mogi Mirim, e frequentando cursos intensivos de teatro pela região. “Acho que comecei criança, performando Chiquititas na sala do apartamento em que eu, minha mãe e minha avó morávamos, em São Paulo (risos)”, relembrou.

A paixão pela cultura caipira se deu em 2013, com o ingresso na carreira de cantora sertaneja de raiz e violeira, fazendo shows em vários estados do país e participando de programas da TV Aparecida e EPTV (emissora afiliada da Rede Globo). Em 2015, fez seu primeiro teste na área de Teatro Musical, na capital, e foi aprovada. Desde lá, nunca mais parou.

“Nesses cinco anos, fiz nove peças (que seriam dez se não estivéssemos em meio à uma pandemia, impossibilitados de ensaiar e estarmos em cartaz) e um filme ‘Sem Pai Nem Mãe’, dirigido por André Klotzel, no qual eu fazia a personagem Ticiane, contracenando com Alexandre Nero (o filme ainda não foi lançado)”, detalhou a atriz.

Paulistana de nascimento e mogimiriana de coração, Pamella tem parentes espalhados pelo Brasil, mas os laços com a Cidade Simpatia, onde ainda vivem sua mãe, apoiadora incondicional dos sonhos da filha, e tios, são fortes, até mesmo na linguagem, que não se livrou do típico sotaque. Mudou-se com a família para o interior pouco antes de completar 6 anos, em busca de melhor qualidade de vida. “Fui criada em Mogi Mirim, falando com o R puxado que mantenho até hoje no meu linguajar, com muito orgulho”, declarou. Somente em 2015, Pamella voltou para cidade natal.

CONSCIENTIZAÇÃO
De um jeito leve e descontraído, a atriz tem procurado se posicionar sobre o momento atual com os vídeos de humor. Para Pamella, essa é uma ferramenta transformadora e relevante, uma vez que, diariamente, recebe mensagens das pessoas que estão acompanhando. “Infelizmente, o número de mortes só aumenta no país e, às vezes, acho que alguns não se conscientizam de que não se trata de apenas números... são pessoas! Isso é muito triste e não tem humor em nada disso, mas acho maravilhoso o poder da arte em tocar as pessoas”, avaliou a artista.

No início, o posicionamento político era feito só nos stories do Instagram e nas conversas entre amigos. “Chegamos a um nível de desgoverno em que fica impossível a mim, como pertencente à classe artística que vem sendo atacada há muito tempo, simplesmente me calar”, desabafou. Apesar da polarização política no país, ainda mais acirrada na pandemia, a atriz disse ter visto muitas pessoas se informando, se conscientizando e passando a tomar posturas diferentes.

Mesmo em algumas publicações de teor político, Pamella ressaltou que o fazer artístico vem carregado de qualidade, humor, leveza e responsabilidade. Ainda assim, considera as críticas que são respeitosas, com algum posicionamento negativo ao conteúdo, porém que possibilitam o diálogo. “Agora, quanto às hostilizações (que são aquelas mensagens cheias de ódio e vazias de conteúdo), dá pra contar nos dedos. Eu e o Marcelo temos cultivado um público muito bacana”, acrescentou a atriz.

Nenhum comentário:

Deixe um comentário

Scroll to top