!


É apenas rock ‘n’ roll (mas eu gosto assim)

Ana Paula Meneghetti

“Eu estava no épico show do Queen [relatado no filme Bohemian Rhapsody] quando 500 mil pessoas cantaram Love Of My Life, deixando Freddie Mercury emocionado e em estado de graça. Fiquei muito assustado com os crucifixos enormes que o povo carregava e com muita gente com morcegos nas mãos para atirar no Ozzy Osbourne. Amei o show modernérrimo de David Bowie. Vi Cazuza, assisti ao show da Legião [Urbana] na Unicamp. Meu último grande show foi o da Amy Winehouse, em São Paulo. Na época, aqui em Mogi, as pessoas perguntavam: Amy o quê? Quem é?”, relembrou o fotógrafo Nato Canto, ao contar algumas das muitas experiências proporcionadas pelo rock 'n' roll.

Frequentador assíduo dos espetáculos, tantos que chegou até a perder as contas, Nato já não tem dúvidas: se considera um dos mogimirianos que mais assistiu a shows nas décadas de 80, 90 e anos 2000. Além de acompanhar o Festival de Águas Claras, em Iacanga-SP, também esteve presente na primeira e segunda edições do Rock in Rio. “Todos os figurões do rock por lá passaram”, destacou.

O rock'n'roll é um estilo musical que nasceu entre as décadas de 1940 e 1950, nos Estados Unidos, e se popularizou para o mundo. Para celebrar a relevância do ritmo, que varia entre diversos estilos e épocas, foi instituído no Brasil o Dia Mundial do Rock, comemorado na próxima segunda-feira, dia 13 de julho. A data é uma alusão ao Festival Live Aid que ocorreu em 1995, simultaneamente, na Filadélfia, nos EUA, e em Londres, na Inglaterra, com a participação de artistas de rock da época, para conscientizar a população mundial sobre a situação drástica de fome e pobreza da África, além de arrecadar fundos para a causa. Durante o show, transmitido ao vivo para vários países, o cantor e baterista Phil Collins sugeriu que a data fosse lembrada como Dia Mundial do Rock.

Nato acompanhou ainda as várias edições de festivais como o Hollywood Rock e o Free Jazz Festival. “Assisti ao péssimo show do Nirvana, com Kurt Cobain dando baixaria, vi Queen por três vezes, Stones, sete vezes. Os meus ouvidos, que escutaram o rock de ontem, não são os mesmos que escutam as músicas de hoje. Flerto com a modernidade. Creio que o rock envelheceu”, avaliou. Atualmente, o fotógrafo tem se levado pelo balanço das músicas eletrônicas e do som das bandas indie, como aquelas que se apresentam no Festival Lollapalooza.

Por enquanto, devido à pandemia do novo coronavírus, os shows presenciais estão suspensos e Nato terá que esperar para ficar novamente frente aos palcos. Quando a crise passar, ele adiantou que gostaria de assistir a um show estilo Corinne Bailey Rae, uma cantora britânica de música soul, ou até mesmo de Morcheeba, uma banda eletrônica britânica. “Mas, agora, com a Covid-19, às vésperas de meu aniversário, no Dia do Rock, quero aproveitar o frio, abrir um vinho e escutar algum som dessa playlist: virei tiozinho...”, brincou, durante a entrevista por e-mail.

‘Eu não vi nada de repressão, não senti agentes da ditadura infiltrados, e sim um clima de liberdade e harmonia’, relata o fotógrafo, sobre o Festival de Águas Claras (Foto: Nato Canto)

“Vivi o barato de Iacanga!”

Realizado no interior do estado de São Paulo, no limite entre os municípios de Reginópolis e Iacanga (380 km da capital paulista), o Festival de Águas Claras teve sua primeira edição em 1975. Retornaria em 1981, reunindo milhares de jovens nos últimos suspiros do movimento hippie. Sob música, ar livre, festa, paz e amor, ganhou ares de Woodstock tupiniquim e status de lenda. Flutuava entre o rock e a MPB, mesclando teatro e circo. Nesse período, o país ainda vivia sob as rédeas do Regime Militar.

“Fui na segunda edição; a edição que deu um 'gás’ no festival, pois a primeira foi amadora demais, muito ‘hiponga’, o festival estava fadado a acabar. Após sete anos, a segunda veio com uma cara profissional, com patrocínios de porte, com pontos de venda de ingressos por todo o Brasil. Em 1981, moleque, peguei minha câmera e fui de carro com mais dois amigos. A maioria ia de carona ou de trem”, recordou Nato. Segundo o fotógrafo, foram três dias de muita música, numa preleção do que seria o Rock in Rio (1985). O festival trouxe diversidade no repertório; teve desde a dupla raiz, Duduca & Dalvan, ao roqueiro Raul Seixas, entre outros nomes, como Gilberto Gil, Luiz Gonzaga e Gonzaguinha, 14 Bis, A Cor do Som, Moraes Moreira e O Terço.

“Nos dias em que estive lá, não tive dúvida que estava no Woodstock brasileiro; um clima de paz e amor, mas também underground”, comparou. O evento começava às 11h e invadia a madrugada. Durante o dia, era quente; os termômetros marcavam até 38 °C, e à noite, apenas de 15 °C, algo semelhante a um clima desértico. “Embora a imprensa de um modo geral dizia, eu não vi nada de repressão, não senti agentes da ditadura infiltrados, e sim um clima de liberdade e harmonia. Satânico, denso, festivo e de protesto mascarado, o show de Raul Seixas foi o ponto alto do festival. Vivi o barato de Iacanga!”, declarou o fotógrafo.

Raul Seixas subiu ao palco mais inspirado e anárquico como nunca se viu até então. Improvisou e distribuiu palavrões em quase todas as músicas. Agitou a massa com clássicos seus e do rock ‘n’ roll dos anos 1950. Cantou até a censurada Rock das ‘Aranha’. Proclamou que “isso aqui não é Woodstock, mas um dia pode ser”.

O fotógrafo Nato Canto se considera um dos mogimirianos que mais assistiu a shows nas décadas de 80, 90 e anos 2000; na foto, durante o Festival de Águas Claras, em 1982, que ganhou status de Woodstock (Foto: Nato Canto)

Nenhum comentário:

Deixe um comentário

Scroll to top