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Muito além do mel: salvem as abelhas!

Ana Paula Meneghetti

A criação de abelhas sem ferrão, atividade denominada de Meliponicultura, está em expansão no Brasil, nos últimos anos, e se tornou uma alternativa de geração de renda em muitos estados. Existem, aproximadamente, mais de 400 espécies de abelhas sem ferrão no mundo todo. No país, são cerca de 300, sendo a maior diversidade de abelhas sem ferrão do mundo. São abelhas muito fáceis de serem criadas; não é necessário nenhum equipamento de proteção para manejá-las e podem ser criadas em centros urbanos e até em edifícios. Por serem dóceis e de fácil manejo, cada vez mais novos produtores despertam o interesse em trabalhar com esses insetos. 

E os motivos desse interesse são muitos. “Vão desde a produção de mel, delicioso e muito utilizado para fins terapêuticos e gastronômicos, produção de própolis, pólen, cera, multiplicação e venda de colônias para fins de educação ambiental e auxílio na polinização de culturas agrícolas ou simplesmente um hobby”, explicou o criador Felipe Tirelli Manara, de 32 anos, que tem um meliponário (uma coleção de colmeias de abelhas sem ferrão) em sua própria casa, em plena área urbana de Mogi Mirim.

Formado em Engenharia de Produção, com cargo em uma multinacional na área de Engenharia de Projetos, Manara tem como um hobby a criação das abelhas nativas sem ferrão. O gosto pela atividade começou ainda na infância. “Qualquer pessoa pode criar abelhas sem ferrão, tanto em áreas rurais quanto urbanas. A Meliponicultura ficou por muitos anos esquecida por órgãos ambientais, mas, hoje em dia, já existem novas definições na lei que legalizam a atividade”, afirmou.

Em fevereiro deste ano, a Secretaria de Infraestrutura e Meio Ambiente (Sima) publicou a Resolução 11/2021, que cria a categoria de fauna silvestre meliponário e regulamenta a criação de abelhas nativas sem ferrão no estado de São Paulo. De acordo com o novo regramento, os criadores poderão fazer o manejo reprodutivo dos insetos para formação de novas matrizes, além da comercialização de produtos, como mel, ou subprodutos, como própolis e pólen. Também serão permitidas atividades de educação ambiental ou ensino (visitas de estudantes, por exemplo), serviços de polinização, pesquisa científica e conservação da espécie. 

Em entrevista, por e-mail, ao jornal A COMARCA, o jovem criador contou um pouco sobre como começou na atividade, deu dicas e orientações para quem quiser ser um criador de abelhas sem ferrão e destacou a importância da Meliponicultura para o meio ambiente, além dos produtos que estão sendo cada vez mais apreciados pela gastronomia moderna. Como bem alertava Albert Einstein: “se as abelhas desaparecerem da face da Terra, a humanidade terá apenas mais quatro anos de existência. Sem abelhas não há polinização, não há reprodução da flora, sem flora não há animais, sem animais, não haverá raça humana”. 

Se as abelhas desaparecerem da face da Terra, a humanidade terá apenas mais quatro anos de existência (Foto: Divulgação)


Sua relação com as abelhas surgiu ainda na infância. Como se deu esse processo? Foi algo natural ou motivado por alguém?
Comecei a criar abelhas sem ferrão com 10 anos de idade. Minha tia e meu avô ganharam uma colônia de abelhas Jataí de um senhor que vendia mel de abelhas europeias. Eu fiquei encantado, foi amor à primeira vista, então, pedi para esse mesmo senhor uma caixa e foi o início do meu meliponário urbano.

O que é preciso para ser um criador de abelhas?
É preciso ter conhecimentos sobre as espécies, os cuidados e manejos necessários. Existem cursos oferecidos por criadores mais experientes e órgãos ambientais, porém conseguimos muitas informações na internet, YouTube, Facebook, Instagram e grupos no WhatsApp. Inclusive, estamos no Instagram @meliponarioabelhadeouro, com muitas dicas de criação, manejo e preservação das abelhas sem ferrão.

Como as pessoas podem fazer isso em casa ou apartamento? Quais as dicas para começar nessa atividade?
Você pode comprar enxames de criadores da sua região ou capturar enxames através de ninhos isca na natureza. Uma dica importante é começar com as espécies mais dóceis e de fácil manejo como Jataí, Iraí, Mirims e Mandaçaia, que são abelhas nativas da nossa região e se adaptam facilmente no meio urbano.

Qual a importância ambiental da Meliponicultura?
As abelhas nativas sem ferrão são gigantes na tarefa de manter a biodiversidade dos biomas brasileiros. Muitas espécies vegetais são totalmente dependentes delas para que possam se reproduzir. Ao passar de flor em flor, essas abelhinhas carregam o pólen e fazem a fecundação, gerando assim a produção da semente e o surgimento de uma nova planta. Cerca de 90% das espécies das matas nativas dependem das abelhas sem ferrão para se reproduzirem, tarefa que as abelhas europeias (Apis mellifera) não conseguem fazer por não serem nativas do Brasil; foram introduzidas aqui em 1840, vindas da Europa e África. Com base nesses dados, é fácil prever as consequências que a extinção total das abelhas teria no mundo. Uma extinção em grande escala resultaria em menor variedade e quantidade de alimentos, tornando-se impossível conseguir produzir alimentos suficientes para todos os habitantes do planeta. Além da espécie humana, a extinção das abelhas teria repercussões negativas para outras espécies e ecossistemas. As abelhas são responsáveis pela polinização de muito vegetais e culturas utilizados na alimentação de gado (indústria agropecuária) mas, mais do que isso, na alimentação de espécies selvagens, ficando sem alimento grande parte dos pássaros, insetos e muitos outros animais selvagens. Muitas pessoas acabam matando as abelhas sem ferrão por não terem conhecimento sobre elas. Eu sempre ajudei a resgatar vários enxames de locais que seriam demolidos, muros que seriam rebocados, locais inapropriados que as abelhas acabam fazendo seus ninhos (relógios de força, fornos, lajes e etc.). Então, eu fico à disposição se alguém tiver alguma dúvida. Não mate as abelhas, sempre existe a possibilidade de resgatá-las e salvar as espécies.

Quais são as espécies criadas?
Crio cerca de 12 espécies diferentes de abelhas da nossa região, como Jataí, Iraí, Mirim Preguiça, Mirim Droryana, Lambe-olhos, Borá, Mandaguari, Boca de sapo, Mandaçaia, Marmelada amarela, Mocinha preta, Uruçu verdadeira e etc. Estou há 22 anos na Meliponicultura. Comecei com poucas espécies na casa dos meus pais na cidade e naquela época fiz um blog que teve muito acesso e procura de meliponicultores e outras pessoas interessadas por essa atividade. Já tive mais de 150 colônias de abelhas sem ferrão e diversas espécies em pleno meio urbano, fiquei durante 20 anos com a criação na casa dos meus pais. Hoje, tenho um novo meliponário na minha própria casa, com cerca de 50 colônias. Como o blog ficou um pouco esquecido e as redes sociais não param, resolvemos, nesse ano, criar uma página no Instagram, dando dicas de criação, manejo e preservação de abelhas sem ferrão. O Meliponário Abelha De Ouro está no Instagram como @meliponarioabelhadeouro. Temos também um antigo blog (abelhadeouro.blogspot.com) com muita informação.

Por que o mel dessas abelhas, por exemplo, é diferenciado?  Você vende algum produto (mel ou derivados)?
O mel das abelhas sem ferrão contém mais umidade do que o de Apis mellifera e, por isso, pode fermentar com mais facilidade. No entanto, as abelhas sem ferrão adicionam propriedades provenientes de glândulas salivares que dão uma característica de leve acidez ao sabor, tornando-o não enjoativo. O mel das abelhas sem ferrão é considerado o mais delicioso que existe, além de ser diferenciado por sua consistência, aroma, coloração e sabor.
Uma das grandes vantagens do mel das abelhas sem ferrão refere-se ao teor de açúcar do mel, menor que o mel das abelhas com ferrão (70% de açúcar). Tem maior concentração de levulose, um açúcar mais doce que a sacarose. Já o teor de água é maior, variando entre 23 e 30%, conforme a espécie. Esse mel possui, também, uma elevada atividade antibacteriana e é tradicionalmente usado contra doenças pulmonares, resfriado, gripe, fraqueza e infecções de olhos, em várias regiões do país. Aos poucos, e por merecimento, o mel das abelhas nativas brasileiras sem ferrão vem ganhando espaço no seleto mundo gastronômico gourmet. Inclusive já roubaram a cena até no programa Master Chef Brasil, exibido pela TV Bandeirantes em 2019. Infelizmente, a produção deste mel é muito limitada, ficando a cargo de regiões onde existem estas abelhas. Sendo assim, torna-se um produto raro, porque só pode ser produzido em locais onde existam florestas tropicais ou subtropicais nativas. A alta cotação do preço do mel das meliponídeas no mercado varia em média, de R$ 60 a 200 cada litro, dependendo da espécie. No Meliponário Abelha de Ouro, não estamos vendendo mel. A produção é somente para o consumo do próprio enxame, por ser um meliponário urbano, a produção de mel é menor devido à falta de áreas verdes nas proximidades.

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