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Sonho de vice-campeã da Superliga de Vôlei foi realizado em Mogi

Diego Ortiz

Um dos desejos mais especiais de uma legião de esportistas é galgar degraus na carreira para proporcionar aos pais o sonho da casa própria. Nascida em São Caetano do Sul-SP e crescida em São Mateus, zona Leste de São Paulo, a jogadora de vôlei Claudinha Bueno, com passagem pela seleção brasileira e vice-campeã da Superliga, em abril de 2021, pelo Praia Clube, de Uberlândia-MG, realizou este sonho em solo mogimiriano e, há sete anos, os pais da atleta residem em Mogi Mirim, onde recebem a filha em períodos de férias.

A relação da levantadora com Mogi começou bem antes de sete anos, pois já passava as férias na casa dos tios. A história da família com a cidade teve origem com o falecido tio Antônio Devechio que começou a namorar a mogimiriana Elisabete em relação que resultou em casamento e mudança para a Cidade Simpatia. Na sequência, outros tios e os avós de Claudinha mudaram para Mogi, enquanto a mãe Edna cultivava o desejo de seguir o mesmo caminho. “O sonho da minha mãe sempre foi morar em Mogi. Desde pequenininha, eu tinha esse objetivo, de um dia conseguir comprar uma casa pros meus pais em Mogi. E graças a Deus, consegui realizar esse sonho”, celebra, contando ter lembranças marcantes das brincadeiras de vôlei na cidade. “O Zerão sempre foi muito marcante, vivi ali naquela quadra de areia brincando, teve uma época também que minha tia morou no Tucura, então, armavam a rede na rua, eu adorava brincar com eles”, recorda.

Hoje, Edna faz vôlei adaptado no Clube Mogiano, onde a irmã de Cláudia também joga. Claudinha tem amigos em Mogi, mas quando vem à cidade é mais para descansar com a família, além de aproveitar para manter o físico em uma academia. Na casa dos pais, também estão seus dois cachorros, Rex e Amora.

A jogadora admira o trabalho do técnico da escolinha de vôlei de Mogi, Alex Lucon, e já participou de uma live com o treinador e as atletas: “Muito batalhador, há quanto anos, ele tá na frente do voleibol, é muito bacana o suporte que ele dá pras meninas e mesmo não tendo investimento, nunca desiste, sempre está firme e forte, é um exemplo”. 

Em férias, Claudinha, identificada com Minas Gerais, fica entre Uberlândia e Mogi. Além de manter o físico, a levantadora, que ainda não havia definido o clube para a próxima temporada até o fechamento desta matéria, aproveita o tempo livre para realizar o que não consegue em época de campeonatos, como cursos, leituras e até crisma on-line. 

Com passagem pela seleção, Claudinha ainda nutre sonho de disputar uma Olimpíada (Foto: Wander Roberto/Inovafoto/CBV)


Superação de desconfianças, visão otimista e MVP de final da Superliga

A trajetória de Claudinha em diferentes momentos envolve a superação da desconfiança, com a visão otimista tendo sido um diferencial para superar barreiras. Finalizar uma semana em que teve a mente perturbada por uma avalanche de situações com o título de campeã da Superliga de 2017/2018 pelo Praia Clube, de Uberlândia, e ainda com o prêmio de MVP da final foi um momento chave em sua transformação. A atuação arrasadora na decisão diante do Sesc/Rio de Janeiro veio depois de uma temporada de críticas e com o aviso de que não faria mais parte dos planos do clube para a temporada seguinte. “Foi depois daquela final que aprendi muito, amadureci muito de não levar tanto como um peso. Muita gente fala: ‘Depois disso, você é outra jogadora’. Eu me sinto assim, cada ano que passa, me sinto mais madura psicologicamente”, salienta, relembrando a semana da final. “Foi um turbilhão na minha cabeça, eu já não estava mais no time pra próxima temporada, a gente sabe que é normal, a gente pode ficar ou não, mas da forma que fizeram foi pra tentar me desestabilizar. E começaram a falar de seleção, que talvez eu seria convocada de novo. Sou muito devota de Nossa Senhora Aparecida, e naquela semana, fui na igreja, pedia somente para tirar todas essas coisas extraquadra para que focasse no jogo, isso aprendi muito: viver o hoje e ser grata a pequenas coisas”, destaca Claudinha, que, depois de uma temporada pelo Osasco, acabou retornando ao Praia, em mais uma volta por cima. 

Por tudo o que representou, aquele foi seu jogo mais inesquecível: “Na verdade, não evoluí numa final, eu já sabia fazer tudo aquilo, só coloquei pra fora por um sentimento psicológico e consequentemente o voleibol apareceu mais. Se sua cabeça estiver positiva, é muito mais fácil essa evolução”. 

A conquista motivou uma de suas diversas tatuagens, o troféu da Superliga com a frase “nunca foi sorte, sempre foi Deus”.

A superação acompanha Claudinha desde o princípio. As dificuldades financeiras foram um entrave para as despesas de início de carreira, superadas pelo apoio do pai Cláudio e vizinhos. Embora já fosse corintiana, Claudinha iniciou sua trajetória no vôlei na base do Corinthians por coincidência, mas foi especial principalmente por ser o time do pai. Com o pai atleta de futebol amador e irmã praticante de vôlei, Claudinha praticava diversas modalidades. Acabou chegando ao Corinthians por intermédio de um teste, após convite de um olheiro que assistiu a um jogo em sua escola. 

O peso foi outro problema, mas, além do apoio da família, teve persistência, confiança e a visão otimista de sempre ver o lado positivo para deixar a vida mais leve. “Eu pesava 20 quilos a mais, era bem gordinha, tive muita pessoas que me agrediam verbalmente, tanto de torcida e até técnicos que pegaram mais pesado, já me chateou muito, mas não me abalou, sou muito positiva e tento transformar aquela coisa negativa em algo produtivo”, ensina Claudinha, que chegou a pesar 97 quilos. “Quando falavam que eu não era capaz, que não iria virar jogadora, eu queria provar não pra mostrar pra pessoa que eu era capaz, mas pra mim mesmo, sempre acreditei muito no meu trabalho, não sei se eu seria a mais habilidosa, a melhor, mas a mais esforçada e que queria mais, isso com certeza, sempre fui, através disso que consegui meus objetivos até hoje”, frisa.

A levantadora considera que o peso não a atrapalhava até por ser mais nova, mas hoje sente grande diferença de estar muito bem fisicamente. “Tenho acompanhamento de um nutrólogo que fez uma mudança muito bacana na minha performance, no meu corpo, cada vez mais me apaixono por essa área, é sensacional, tanto psicologicamente como em performance, esteticamente. É muito legal quando a gente se cuida e tem prazer”, conclui Claudinha, que não vê a vida no esporte como um sacrifício e adora treinar até mesmo nas férias. 

Paixões artísticas: Claudinha faz aula de canto e ama dançar

Os sonhos de menina de Claudinha eram ligados a atividades artísticas e a paixão persiste como um hobby, mas a atleta não descarta uma futura carreira musical. “Eu era apaixonada em cantar, dançar, desfilar, sou até hoje, mas a situação financeira não ajudou a dar continuidade, mas acho que Deus é tão maravilhoso que me abriu as portas para o esporte. E me atrevo, de vez em quando, adoro colocar uma música e dançar sozinha, tô fazendo aula de canto. Todo mundo fala: ‘Sua voz é muito bonita, você é afinada’. Mas tenho que aprender as técnicas”, reconhece.

Para cantar, a preferência é por sertanejo ou pop romântico. Para dançar, prefere axé, funk ou forró. 

Os caminhos para o futuro são amplos. Como tem paciência e gosta de ensinar, não descarta ser técnica de vôlei e acredita que seria boa especialmente na base. “Já pensei em ser nutricionista que é algo que, ao longo da carreira, fui aprendendo, tenho essa coisa de querer ajudar as pessoas, e a psicologia. Quem sabe também a música, vivo a cada dia. Acredito que até que Deus me permita ter mais uns nove anos de carreira, até lá outras coisas vão aparecer”, reflete.

Claudinha diz já ter sido mais tímida, mas hoje é atuante nas redes sociais e até se diverte como garota-propaganda em parcerias quando vivencia um pouco a faceta de modelo.

Se o futuro pós-carreira está em aberto, na vida pessoal, tem convicção. Solteira, deseja conhecer uma pessoa boa com quem possa compartilhar o sonho de ter um filho. Hoje, divide a rotina de atleta com a de dona de casa, mas tem ajuda de uma profissional para a faxina de 15 em 15 dias e uma parceria com fornecedor de marmitas fitness. “A gente tem um tempo livre entre um treino e outro, mas o cansaço é tão grande que você só quer descansar. Não é nem preguiça, porque, de férias, tô fazendo mil coisas e não canso, limpo a casa todos os dias, todo dia, invento alguma coisa, me arrisco a fazer um bolo saudável”, observa. 

Nas horas vagas, além da música, adora séries. Vaidosa, ama cuidar das unhas. Nas férias, lê livros de autoajuda e gosta de estar com a família.

Claudinha (número 4 do Dentil/Praia Clube) levanta bola na decisão diante do Itambé/Minas, em abril, em Saquarema-RJ; campeã e MPV da final da Superliga 2017/2018, atleta foi vice-campeã na temporada 2020/2021 (Foto: Wander Roberto/Inovafoto/CBV)


Melhor momento da carreira e sonho com Olimpíadas

O sonho de defender a seleção brasileira já foi alcançado, mas Claudinha ainda sonha com uma Olimpíada. Aos 33 anos, se sente no melhor momento da carreira e em franca evolução, mas não integra os planos do técnico José Roberto Guimarães, com quem já viveu um polêmico episódio, em 2014, quando foi chamada de burra pelo treinador quando defendiam o Campinas. Embora o episódio, responsável por gerar críticas à postura do técnico, seja considerado superado, a levantadora não foi mais convocada para a seleção. 

Porém, além de se manter em alto nível, evoluiu e foi campeã da Superliga 2017/2018 pelo Praia Clube e MVP da final. Claudinha não sabe o motivo de não ser convocada, mas prefere focar no clube para merecer uma futura convocação. A atleta acredita que pode disputar as Olimpíadas de Paris, em 2024. Um novo treinador para o próximo ciclo olímpico poderia beneficiá-la, mas Claudinha tem confiança independente deste fator. “Acredito que se eu for merecedora, quem sabe não tem uma possibilidade, até mesmo se for o próprio Zé Roberto, independente de quem for”, ressalta.

A idade não a preocupa. Em abril, foi convocada Carol Gattaz, de 39 anos. “Não tem idade, Carol Gattaz está voando, no melhor momento, olha que sensacional”, vibra.

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