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Lyra Mojimiriana: Três décadas sem sair do tom

Primeiro ato: A orquestra subversiva

Em agosto de 1985, o maestro Carlinhos Lima e outros 13 músicos se reuniram nas dependências do Tiro de Guerra (TG) de Mogi Mirim. A reunião inevitavelmente remete à origem das bandas de música no Brasil, que nasceram justamente dentro de divisões militares ainda no século XIX, por intermédio da Família Real.
Sem majestade, mas com o objetivo de formar uma orquestra, a reunião no TG marcou o começo da Banda Lyra Mojimiriana. Obviamente, em uma cidade que sequer possuía divisão de cultura na Administração Municipal, o caminho não seria nada fácil.

A Lyra nasceu com DNA subversivo. Através de seu maestro, teve participação em todas as ações promovidas em prol da Cultura em Mogi Mirim. O maior exemplo é a ocupação do prédio que hoje abriga o Centro Cultural, em 1987, um protesto que reivindicava um espaço para as Artes na cidade.

“Nós, sem violência, conseguimos um resultado fantástico”, lembra o maestro Lima. A Prefeitura não só inaugurou o Centro Cultural como criou um departamento municipal voltado para a área. Havia um sentimento de melhorar não só Mogi Mirim, mas também o Brasil.

A Lyra surgiu com a Nova República e a redemocratização do país, no apagar das luzes da Ditadura Militar. Não por acaso, uma das primeiras músicas organizadas pela orquestra foi “Estão Voltando as Flores”, o hino de esperança do compositor Paulo Soledade.

Subversivos eram também os arranjos do maestro Carlos Lima, considerados pela imprensa dos anos 1980 como “criativos e pouco convencionais”. Fazendo da Praça Rui Barbosa o seu palco, a Lyra se apresentava com músicas de Zequinha de Abreu, Milton Nascimento, Beatles e outros nomes consagrados da música brasileira e internacional.

Já em 1988, uma notícia publicada por A COMARCA já comprovava o sucesso da banda: “A Lyra Mojimiriana vem de experiências bem sucedidas no cenário estadual, despontando como um conjunto virtuoso, seguro nas apresentações e executando um repertório contemporâneo, fazendo sobressair o tom arrojado dos arranjos do maestro Lima”.

Eterno insatisfeito, o exigente maestro Lima aos poucos foi tornando a Lyra cada vez mais profissional, com músicos mais preparados. A intenção era uma só. Dar a Mogi Mirim uma orquestra de qualidade.

Segundo ato: A educação que transforma

Já consolidada, a Lyra Mojimiriana passou a formar músicos com um trabalho de excelência. “Já há mais de dez anos a Lyra consegue fazer um trabalho melhor que qualquer conservatório”, avalia o maestro Lima, que sabe o valor do estudo e da disciplina. Afinal, são décadas de experiência em conservatórios, faculdades e pós-graduações.

“Não dá para formar um músico em menos de dez anos”, garante Lima. E esse é um dos diferenciais da banda. A Lyra não tem pressa. “Nunca cortamos por um atalho”, resume o maestro. Além disso, a instituição não aceita em seus quadros profissionais ninguém que não tenha experiência em música. “Abrir mão do conhecimento é a grande armadilha da geração atual”.

Hoje, a Lyra atende a aproximadamente 850 alunos, sendo 350 deles nas escolas municipais. Além da Orquestra Sinfônica, o carro chefe do grupo, existem ainda a orquestra infantil, o grupo de cordas, o grupo seresta e o coral infantil.

Tanto esforço ganha reconhecimento. Os projetos inscritos pela Lyra em parceria com a Prefeitura foram selecionados entre 1.947 de todo Brasil no Prêmio Itaú-Unicef, que nesta edição tem como tema “Educação Integral: Aprendizagem que Transforma”. Agora, a escola de Mogi Mirim está entre os 160 semifinalistas selecionados.

Terceiro ato: A cultura profissional

Nos últimos sete anos, a Lyra vem se dedicando a uma gestão profissional a fim de fomentar a Cultura em Mogi Mirim. Um dos resultados é o Festival de Inverno (Festimm) que nos últimos dois anos trouxe à cidade os artistas Zeca Baleiro e Zizi Possi.

“A nossa busca jamais foi por dinheiro, então nunca pensei que pudesse criar essa estrutura”, afirma Lima. A Lyra cresceu tanto a ponto de sua própria diretoria ter que se especializar em gestão e administração. Apenas assim a instituição pode continuar crescendo.

“Hoje nós somos a primeira da região a ter uma empresa de auditoria de renome internacional”, destaca o maestro, enaltecendo a transparência da Lyra. Essa transparência tem um objetivo certo: atrair mais investidores privados, uma vez que a banda quer depender cada vez menos do Poder Público.

O próximo passo? A orquestra profissional do primeiro emprego, mais um passo da Lyra rumo à profissionalização definitiva e que servirá de incentivo para que os próprios músicos se aprimorem. A receita para os bem sucedidos 30 anos da Lyra é dada pelo maestro Carlos Lima: “A Lyra sempre foi pioneira, não tem medo de ousar”.

Por Flávio Magalhães
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