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Luiz Filipe Manara disputa a Paralímpiada de Tóquio

Diego Ortiz 

Mogi Mirim estará representada nos Jogos Paralímpicos de Tóquio pelo mesa-tenista Luiz Filipe Guarnieri Manara, de 29 anos. As Paralimpíadas começam nesta próxima terça-feira, 24, e terminam em 5 de setembro. A equipe brasileira de tênis de mesa chegou ao Japão no dia 7 de agosto. Em 31 de julho, Manara, que é atleta do clube FranTT, de Piracicaba, havia se apresentado à seleção para treinos em São Paulo antes da viagem.

Embora esta seja sua segunda Paralímpiada, Manara destaca ser uma experiência diferente por ser a primeira fora do Brasil. Poder disputar os Jogos depois de inúmeras incertezas e tensões relacionadas à pandemia de Covid-19 é especial. “Foi adiada e pensou-se até no cancelamento, isso afetou muito a gente, o fato de ter os Jogos já é uma grande vitória, traz uma alegria muito grande”, celebra.

O primeiro desafio de Manara será passar da primeira fase, o que não conseguiu nos Jogos Paralímpicos do Rio 2016, quando perdeu os dois jogos disputados. Na primeira fase, são formados oito grupos de três atletas, classificando-se dois de cada grupo para as oitavas de final. 

Se o resultado individual é difícil, com Manara considerando uma quartas de final um grande resultado, por equipe, a dificuldade é ainda maior. Um dos motivos é seu parceiro de dupla, Carlos Carbinatti, também ser canhoto, o que gera complicações: “Mas a gente treinou e vai tentar surpreender”.

O duelo por equipe é melhor de três jogos. Carbinatti irá disputar um jogo individual e haverá a disputa em duplas. Se houver empate, Manara faz o terceiro jogo. Embora observe haver o temor da Covid-19 mesmo vacinado com duas doses e usando máscaras, Manara pretende, dentro das possibilidades, desfrutar da Vila Paralímpica e assistir outras modalidades.

“Depois que acabar minha competição, tem até 48 horas para deixar o país, em 48 horas, a credencial deixa de valer, é um procedimento adotado até para diminuir riscos, assim como não pode sair da Vila, não pode usar transporte público. Conhecer alguma coisa de Tóquio não vai dar, só o que der pra ver dentro do transporte mesmo”, lamenta.

Luiz Manara em treinamento da seleção brasileira na cidade de Hamamatsu, no Japão (Fabio Chey/CPB)


Foco de atleta mogimiriano é ousar para surpreender favoritos: “Hora de arriscar”

Bicampeão parapan-americano, Luiz Manara sabe como é vivenciar o papel de favorito nas competições da América. Nas Paralimpíadas, se transforma em azarão e passar da primeira fase já é um desafio. O fato de não carregar o favoritismo tem o aspecto positivo. “Falar que não vou ficar tenso, que vou jogar tranquilo, que não vai dar um nervoso na estreia é mentira porque acho que todo atleta passa por isso, uns demonstram mais e outros menos. Mas pelo fato de eu estar correndo por fora, de saber da dificuldade que é eu conquistar uma medalha, talvez eu possa usar isso a meu favor, de não ter a pressão do resultado, como quando eu estou num Parapan-Americano”, compara.

Manara observa que, mesmo preparado emocionalmente, podem vir emoções diferentes. “Vai muito de como está na semana, no dia, mas trago experiência da Rio 2016 de saber que é um campeonato que às vezes nivela mais. Os que são tão bons, até pela pressão, às vezes não conseguem desempenhar tanto, vou tentar usar a meu favor, tentar superar a expectativa de desempenho, mas não cobrando resultado, só que se os bons derem uma brecha, eu vou pra cima”, avisa.

Manara foca em ousar para surpreender os favoritos. “Está sendo até tranquilo trabalhar o foco para essa ousadia, é lógico que na hora do jogo que vou ter que ver como que vou estar de acordo com a tensão, mas o que mais tenho que trabalhar tendo essa ousadia é como desempenhar no caso de eu estar surpreendendo o favorito e com chances de ganhar, como vou lidar com isso, porque surpreender no começo do jogo é uma coisa, a hora que você vê que tem a real chance de ganhar, bate uma tensão, é mais nisso que tenho pensado”, comenta, confirmando que precisa sair de seu jogo comum. “Tenho que fazer algo diferente pra ter um resultado diferente, mas sei que mesmo eu fazendo pode ser que dê certo ou pode ser que não, mas é a hora de arriscar, é a chance que tenho, não tem como ser de outra forma”, justifica.

Embora admita que uma medalha seria um sonho, Manara não se empolga com a ideia e foca em jogar bem. “Lógico que é um sonho buscar uma medalha, independente da cor, seria fantástico, mas meu foco é no desempenho, tô correndo por fora, assim como no Pan-Americano vou visando o ouro, que pode me garantir em Jogos Paralímpicos, aqui tenho que tentar surpreender e fazer o meu melhor, independente de resultado”, afirma.

O fato de as Olimpíadas ocorrerem antes serviu para Manara curtir os jogos nas madrugadas e ter uma ideia do local da competição. “Fiquei algumas madrugadas acordado, gostei muito da participação do Brasil. E a gente brinca aqui que eles abrem a festa para depois entrarem as grandes estrelas que somos nós, mas sem criar polêmica, é só uma brincadeira. Mas é bom poder acompanhar porque você já começa a ver o local de competição, a gente já chega e não vai ter tanta surpresa, começa a vivenciar mesmo que distante e alivia um pouco a tensão”, admite.

Uma ausência sentida, em razão das restrições relativas à presença de público, é não ter os pais presentes. “Meus pais sempre me acompanharam em eventos como os Parapan-Americanos e Paralimpíadas, mas é uma coisa que já era esperada e era necessário, cabe encarar da melhor forma, já que cogitou-se que poderia não ter a Paralimpíada, a gente tem que agradecer”, pondera.

Manara aponta físico inferior a 2016, mas vê evolução técnica

Ao analisar as atuais condições em comparação com os Jogos Paralímpicos do Rio de Janeiro, em 2016, o mesa-tenista aponta estar em um pior momento físico devido aos períodos de suspensão de treinamento em virtude da pandemia de Covid-19. Por outro lado, além de hoje já ter uma experiência paralímpica, se sente em um melhor momento técnico.

Curiosamente, Manara gostaria de melhorar o aspecto físico em relação à Rio 2016, quando vencia o sueco Linus Karlsson por 2 sets a 0 e acabou sofrendo a virada por ter sentido cansaço. “No Rio, senti por exemplo, na partida que valia passar do grupo, um pouco de cansaço no final, o nível de exigência é muito alto mental e físico, espero não ter esse problema para conseguir a partida inteira jogar da mesma maneira. Acho que seria isso que eu gostaria de melhorar já que considero que o meu desempenho na Rio 2016 foi muito bom, não passei do grupo por um set que eu perdi pro 8º do mundo na época”, coloca.

Por outro lado, Manara pretende dessa vez utilizar algumas estratégias para suportar melhor o jogo. “Tenho artifícios para tentar não sentir tanto essa parte física que não fiz na Rio 2016, como parar um pouco mais o jogo, ir num dos tempos, que por exemplo na Olimpíada do Rio, para trocar uma camiseta, tinha que sair da área de jogo e voltar, que é uma coisa que dá para dar uma recuperada. Hoje, se for assim dá para tentar ganhar um fôlego a mais, não chega a ser uma catimba, mas para estar da melhor forma possível”, explica.

Em contrapartida, em cinco anos, Manara entende ter evoluído alguns aspectos técnicos. “Trabalhei muita coisa de equalizar mais meu jogo, tenho o forehand muito forte e o backhand era um pouco mais deficitário e nessa preparação, trabalhei muito essa questão de equilibrar e conseguir fazer o backhand funcionar de uma melhor forma e isso pode ser até uma das coisas que eu consiga surpreender os adversários que vêm esperando eu jogar da mesma forma”, declara.

Manara também tem se sentido muito bem tecnicamente nos treinos no Japão. “Algumas coisas que treinei nos últimos meses tentando encaixar em Piracicaba e não tavam saindo, agora finalmente começaram a sair”, comemora. O mesa-tenista também celebra a evolução técnica obtida em treinos nos últimos meses com Paulo Camargo, em seu clube, o FranTT, em Piracicaba, onde fez a maior parte do período de preparação, com outros treinamentos tendo sido realizados junto com a seleção brasileira em São Paulo.

“Nesses cinco meses que considero minha principal preparação para Tóquio, a gente fez uma periodização com o Paulo Camargo, eu e o Carbinatti, a gente treinava junto e deu muito certo, porque ele tava dando treino só pra gente naquele momento, focado na nossa mesa só. Foi quase que algo particular para melhorar cada um aquilo que precisava, se por um lado ficou difícil por algumas coisas, por isso, foi um benefício. Foi um dos períodos da minha carreira que mais consegui evoluir tecnicamente exatamente por ter o técnico o tempo inteiro ali atrás conseguindo te dar esse suporte”, reconhece.

Em Tóquio, Manara terá o desafio de ausência de Camargo. “Claro que gostaria que meu técnico tivesse aqui, a gente tá em contato diário passando como tá indo os treinos, as coisas que acho que têm que melhorar, e ele falou que é muito importante eu desfrutar dessa competição, independente de qualquer coisa. É uma mensagem muito importante pra mim, mas tem outros técnicos aqui, lógico que eu gostaria de ter ele porque é alguém que tenho o contato no dia a dia e sabe me ajudar a entender o jogo e ver como estou em determinadas situações, mas vai de conversar com as pessoas que estão aqui. É um desafio, lógico, não ter ele aqui, mas faz parte da vida do atleta, assim como outros campeonatos que eu fui até sem técnico”, reflete.

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