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'Efeito Fadinha' impulsiona prática do skate em Mogi Mirim

 Diego Ortiz

O sucesso da estreia do skate nos Jogos Olímpicos, com três medalhistas brasileiros e o diferencial da conquista da prata pela carismática Rayssa Leal, a Fadinha, de 13 anos, impulsionou a prática do esporte no país, com o despertar de novos adeptos. Em Mogi Mirim, houve expressivo aumento na procura, crianças se entregando à paixão pela modalidade e nascimento de projetos para o ensino. A vitória de Fadinha na primeira etapa do Mundial de Skate Street, no sábado, deu mais um impulso à modalidade. 

Na Cali Skate Shop, na Praça Floriano Peixoto, a procura aumentou significativamente com as Olimpíadas. “Acredito que tenha aumentado uns 150%, 200%, principalmente por crianças, iniciantes. A maior parte tem sido meninas, o efeito Fadinha”, contou o sócio-proprietário Fellipe Augusto.

Passado pouco mais de um mês da conquista da prata, o título no Mundial voltou a gerar uma movimentação. “Hoje, já vieram duas pessoas e mais uma procura pelo Whats. Duas já levaram”, observou Fellipe.  

Um indicador do efeito Fadinha na Cali foi sentido com o fato da atleta ter conquistado prata em 26 de julho, início da última semana do mês, quando o movimento costuma ser pior. “Final de mês o movimento era para ser bem fraco e aumentou, foi melhor do que em dezembro, por exemplo, que normalmente é muito bom. A maioria pais procurando skate para os filhos”, comentou o skatista Matheus Montini, que tem o estúdio de tatuagem Next Tattoo na Cali. 

Além da procura por skates, outra onda é a de interessados em aulas. “Teve bastante procura de crianças querendo aprender a andar, primeiros passos. A gente está começando uns projetos para dar aula para a criançada. Aqui na loja, a gente tem uma pistinha de skate no fundo, vai tentar agregar uma aulinha para a galera que quer aprender no começo”, revelou Montini.

O Clube Mogiano realizou um projeto experimental de aulas em agosto, a Skateboarding Experience, o que também ajudou no aumento das vendas na Cali, mantendo aquecida a onda olímpica. “O aumento tem sido bem progressivo principalmente por conta das aulas do Clube Mogiano. Pessoal está fazendo um trabalho legal com as crianças”, frisou Fellipe.

Uma preocupação de Matheus é que a situação precária da estrutura pública em Mogi Mirim possa desanimar crianças que tenham se empolgado com as Olimpíadas. “A criança que tá começando, às vezes, acaba se desanimando um pouquinho porque na TV ela vê as pistas legais, chega para andar, não tem aquela vibe”, analisou. 

Matheus costuma andar pelas ruas, no Teatro de Arena e na pista da Praça Nove de Julho, conhecida como Half, onde competições já foram realizadas. “Na verdade, não tem estrutura, Mogi Mirim, Mogi Guaçu, essa região, peca muito nisso. Nas outras regiões, é bem mais incentivado, o lugar é bem mais cuidado”, comparou o skatista, que citou cidades com boa estrutura. “Indaiatuba, Poços de Caldas, São João da Boa Vista é bem bacana. Cidades mais perto que são menores que aqui e têm estrutura legal são Serra Negra, Águas de Lindóia, Lindóia, Socorro, todas têm uma pista ou uma coisa bem mais atual, a pista daqui é muito antiga e nunca passou por uma reforma muito grande”, avaliou. 

Assim como outros skatistas criticaram na época da inauguração, Matheus lamentou a forma com que foi construída a pista em praça no Residencial Floresta. “É um projeto que saiu em várias cidades, em Amparo tem uma igual, não é praticável, fizeram só pra falar que fez, quem anda de skate mesmo não tem muito o que fazer lá”, colocou Matheus, que revela esperança que a situação melhore em Mogi com maior incentivo ao skate.

Andar na rua acaba tendo vantagens, mas gera preocupações. “Na rua é melhor, mas como o skate é mais agressivo, às vezes acaba estragando alguma coisa”, abordou, apontando como outro problema o registro de acidentes. 

No aspecto do preconceito contra o skate, Montini espera que o efeito positivo das Olimpíadas seja permanente para reduzir o problema. “Agora que tá na euforia, acredito que sim, mas vamos ver, torcer para dar uma diminuída legal”, declarou.

‘Tudo que conquistei foi através do skate’, frisa Matheus Montini

Tatuador no estúdio Next Tattoo, montado na Cali Skate Shop, Matheus Montini começou a praticar o esporte aos 10 anos e valoriza a modalidade como essencial para sua vida. “Faz muito parte da minha vida, todas as amizades que tenho, tudo que conquistei, foi através do skate. Sempre foi um estilo de vida. É tudo conectado, o skate, a arte. Quando comecei a tatuar, eu queria um emprego em que eu fizesse meus próprios horários para ter mais tempo livre para andar de skate, aí que veio a calhar a tatuagem”, relata.

O que mais encanta Montini no mundo do skate é a diversidade. “Skate abraça todo mundo, você vê mesmo nas Olimpíadas, não tem um perfil de atleta, normalmente, nos outros esportes, ginástica, é tudo muito parecido, a mesma roupa, o skate é bem individualista e respeita tudo, você vê o atleta alto, baixo, o mais gordinho, o mais magrinho, abrange todos os estilos”, ressalta Montini, que, desde criança, participa de campeonatos em diversas cidades e estados e já conquistou diversos títulos na categoria amador na modalidade street. “Em Mogi Guaçu e Mogi Mirim, por mais que tenham poucos atletas, os que têm são muito bons”, destaca. 

Participante de campeonatos em diversas cidades, com títulos conquistados, Matheus está inserido em projeto para ensinar crianças; trabalho como tatuador foi motivado pela paixão pelo skate (Foto: Júnior Lemos)

Alice pediu um skate após ver Rayssa Leal: ‘Ficou encantada’ 

Em passeios com os pais para saborear um lanche, a menina Alice Sardinha, de sete anos, aproveitava para brincar com um skate emprestado na minirrampa da Cali Skate Shop. Ao ver Rayssa Leal, a Fadinha, brilhar nas Olimpíadas, a paixão deixou o espaço da loja para ganhar as ruas e motivou um presente especial. 

“Ela ficava brincando na rampa e a gente foi deixando e, agora, depois das Olimpíadas, ela ficou mais deslumbrada pelo esporte e acabou pedindo um skate pra ela. Agora, ela tem o dela, está toda hora em cima”, salienta a mãe, a fisioterapeuta Lídia Moreira Sardinha, de 32 anos, revelando que Alice não assistiu à conquista da prata ao vivo por ter sido na madrugada: “A gente acabou mostrando pra ela depois que a Rayssa ganhou e ela ficou encantada”.

A mãe praticou o esporte na adolescência: “Eu gostava bastante e já tive algumas coisas do básico do básico para auxiliar ela, e agora ela pegou gosto, agora mesmo que eu tô falando com você, ela está andando de skate no quintal”.

Questionada se Alice puxou a mãe, Lídia observou uma característica do pai, que não é skatista. “Eu não sei porque o pai dela também é destemido, acho que é nato, é dela. Ela não tem medo”, garante a mãe.

Alice reconhece, além da motivação de assistir Fadinha, a importância de Lídia para aprender o esporte. “A minha mãe me ensinou como andar de skate, daí, comecei”, aponta a filha, respondendo também ter o desejo de disputar campeonatos e o sonho de ir às Olimpíadas. 

Entre os locais onde Alice anda estão Jardim Murayama e Jardim Brasília. “Por enquanto, ela quer brincar na rua, tem pegado mais coragem, já tem feito mais coisas. Corre, vai, pula no skate e sai andando”, expressa Lídia. 

Com a experiência de quem já foi praticante, a mãe reconhece um preconceito contra o esporte e, em dose dupla, para as mulheres. “Para mulher em qualquer âmbito, sempre vai ser mais desafiante. A mulher sempre está tendo que superar muitas barreiras, principalmente a do preconceito, impotência, mas acho que o preconceito hoje diminuiu bastante, com as Olimpíadas deu uma boa clareada, mas acredito que exista, (falam) ‘é vandalismo, não tem nada pra fazer’, não é visto como esporte. Com certeza vai mudar por causa das Olimpíadas”, prevê.

Alice, de 7 anos, brincava com um skate emprestado quando visitava loja e, ao assistir Fadinha, ficou deslumbrada e pediu um de presente; “Agora, ela tem o dela, está toda hora em cima”, relata a mãe Lídia (Foto: Arquivo Pessoal)

Aulas experimentais agitaram mês de aniversário do Clube 

Embalado pelo sucesso do esporte nas Olimpíadas, o Clube Mogiano promoveu o Skateboarding Experience, uma série de aulas de skate nos quatro sábados de agosto, também em celebração ao mês de aniversário do Recanto. Coordenadas pelo professor Bruno Camargo, técnico de handebol, as aulas tiveram caráter experimental, mas há a ideia de o projeto ter continuidade, ainda sem data definida.

Devido a restrições e agendamento, foram atendidos cerca de 30 alunos, com 20 ficando na lista de espera. “A visibilidade nas Olimpíadas modificou o skate no mundo, é um esporte que traz valores, principalmente o respeito, a amizade, estilo de vida, liberdade, tem um lado cultural. Skateboarding Experience, que chamamos o primeiro evento nosso, seria promover essa experiência do que é o skate, a tendência é que as crianças e os adolescentes pratiquem cada vez mais”, afirmou Bruno.

Há várias décadas, o skate é praticado no Clube Mogiano. A atual pista, que sucedeu a antiga desativada, estava defasada e, recentemente, recebeu melhorias. “Às vésperas de liberar, a Fadinha ganhou prata nas Olimpíadas e no mesmo dia, escrevi um projetinho de ideias do que poderia ser feito e a diretoria entendeu que era o momento. Como eu andei de skate há mais de 25 anos, me propus a criar uma metodologia de trabalho para atrair crianças e pais, com ideia de descriminalizar, sociabilizar e mostrar o quanto é maravilhoso. A ideia surgiu com a visibilidade da medalha da Rayssa Leal e dos meninos e com uma nova filosofia de utilização da pista”, explicou Bruno.

Com a metodologia de introdução à modalidade, Bruno coordenou as aulas com participação de inúmeros professores do Recanto e dicas de skatistas, como Matheus Tavares, funcionário do Clube. “A gente não tem um professor que seja skatista, mas temos vários que trabalham com desenvolvimento humano, motor de criança, o alicerce das aulas. Aliamos outras modalidades como dança, estilo hip hop, para trazer mais público com essa filosofia, e no primeiro dia, o Danilo Cunha apresentou a street art, acabou até fazendo uns desenhos, o grafite, a arte dele na nossa pista”, detalhou.

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