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Bombeiro mogimiriano realiza sonho em Portugal

Diego Ortiz

Unir as paixões do voluntariado e da atuação como bombeiro e ainda poder se tornar um profissional remunerado da área. De quebra, realizar o sonho de atuar na Europa. A junção não permitida no Brasil por questões normativas de duas paixões foi possibilitada na cidade de Torres Vedras, em Portugal, onde hoje atua o mogimiriano Cyrus Soltani Manjaterra, de 30 anos, como bombeiro voluntário e profissional. 

No Brasil, em Mogi Mirim-SP e Joinville-SC, na atuação como bombeiro, Cyrus era apenas voluntário, pois caso se tornasse profissional, teria que renunciar ao voluntariado na área, o que nunca admitiu. 

No período em que atuava como voluntário no Brasil, contava com outros trabalhos como forma de ser remunerado e enriquecer conhecimentos. Em Mogi Mirim, onde foi bombeiro de 2010 a 2014, trabalhou como condutor socorrista do Serviço Móvel de Atendimento de Urgência (Samu). Em Joinville, foi motorista da concessionária de rodovias Autopista Litoral Sul. 

Em Torres Vedras, como forma de receber uma remuneração, ficou um período atuando em uma associação de socorros, um serviço de ambulâncias particulares que realizam apenas transporte de pacientes entre hospital e casa, sem atender emergência. Depois, trocou de empresa no mesmo setor até ficar apenas no quartel exercendo as funções de profissional e voluntário em turnos diferentes. As funções são as mesmas, mudando apenas o fato de ser ou não remunerado de acordo com o plantão. 

“No Brasil é proibido. Quando eu estava em Joinville, me surgiram várias oportunidades de ser profissional de casa, mas eu falava: gostaria de ser profissional, mas também quero ser voluntário. Eles falavam: não pode por causa de leis trabalhistas, só que cá, como é totalmente diferente as leis, tem essa possibilidade”, frisa.

O desejo de ser voluntário está ligado à sua religião, a Fé Bahá´í, em que há grande valorização do servir à humanidade. A alegria de exercer o voluntariado como bombeiro é explicada pela oportunidade de fazer o bem em momentos delicados. “Fazer a diferença na vida das pessoas principalmente nos piores momentos das vidas dessas pessoas sem receber nada, é um gosto muito grande, é uma maneira de agradecer a comunidade”, ressalta. 

Embora sonhasse desde garoto em ser bombeiro voluntário na Europa, a ideia de atuar em Portugal surgiu a partir de sua mãe, Glória Soltani, que tinha o desejo de residir no país e sugeriu a Cyrus procurar um quartel português para trabalhar na época em que o mogimiriano estava exercendo o voluntariado em Joinville.   

Antes da realização de trabalhar na Europa, havia deixado Mogi Mirim para atuar em Joinville visando realizar o sonho de trabalhar como bombeiro em uma grande cidade. “Joinville tem a maior corporação de bombeiros voluntários do Brasil. Mandei um e-mail para eles, estavam precisando de motorista de caminhão e respondi: tô descendo e desci. Joguei minhas malas no carro e falei: vou pra Joinville, pedi demissão do Samu e fui”, rememora.

MOGI MIRIM
Em 2013, Cyrus e a mãe Glória realizaram uma cessão em regime de comodato de uma ambulância e um caminhão de combate a incêndio para a corporação dos bombeiros de Mogi Mirim até em gratidão pelos atendimentos prestados à avó de Cyrus quando necessitava de transporte para o hospital e pelo conhecimento da necessidade de uma melhor estrutura para a equipe da cidade.  

Enquanto aguardava viajar definitivamente para Portugal, já após ter saído de Joinville, Cyrus gostava de atuar voluntariamente em Mogi Mirim ao lado dos companheiros, o que também fazia quando vinha para a cidade nos tempos em que trabalhava em Santa Catarina. O mogimiriano tem vontade de visitar Mogi Mirim e aproveitar para ficar uma semana trabalhando como voluntário. Com grandes laços de amizade, mantém contato constante com bombeiros de Mogi.

No último dia 11 de outubro, aniversário da corporação de Torres Vedras, Cyrus recebeu o cobiçado capacete dourado, um simbolismo especial, depois de ter se formado na escola nacional dos Bombeiros (Foto: Paulo Caetano/Foto Imaginativa)


Escolha de Torres Vedras foi fruto de minuciosa pesquisa


Depois de definir a intenção de rumar para Portugal, Cyrus Soltani Manjaterra passou para outra missão: definir em qual cidade trabalharia. A escolha por Torres Vedras foi fruto de uma minuciosa pesquisa para definir em qual quartel gostaria de atuar. 

“A escolha foi um bocado puxada, 427 corporações de bombeiros voluntários no país e apenas sete delas que são somente profissionais, que são das grandes cidades, militar não existe cá, graças a Deus”, afirma. 

A pesquisa envolveu características das cidades e quartéis, com observações nos sites sobre estrutura e tipos de veículos. “Abri o Google Maps, fui vendo praticamente quartel por quartel, abrindo site deles, fui escolhendo até chegar à cidade que eu estou hoje, Torres Vedras”, relembra.

Embora tenha se mudado em agosto de 2019, em fevereiro, foi a Portugal na companhia da mãe Glória Soltani para conhecer a corporação até para saber se era o que realmente queria. Na programação, pretendia visitar outros quartéis. “Não cheguei a ver nenhum dos outros quartéis, porque me senti tão bem aqui”, recorda. 

Os companheiros de trabalho se impressionaram com o fato de pertencerem ao quartel eleito entre os mais de 400. “Eles acharam interessantíssimo quando comecei a contar. O pessoal acha muito divertido como foi a escolha”, conta. 

Ao chegar a Portugal em agosto de 2019, Cyrus iniciou o curso de bombeiros, pois os realizados no Brasil não tinham validade para o país europeu. Em virtude da pandemia de Covid-19, o curso, que deveria ter sido finalizado em 2020, acabou apenas em 2021 e Cyrus se formou em julho. Porém, no segundo semestre de 2020, o mogimiriano e demais alunos começaram a trabalhar como estagiário. 
Com a pandemia, a mãe acabou ainda não mudando para Portugal, embora tenha visitado Cyrus, que reside sozinho, no dia da formatura. 
 
CAPACETE DOURADO
Na cerimônia de formatura, em outubro, Cyrus vivenciou o momento especial de receber o capacete dourado e o uniforme de gala, envoltos por toda uma simbologia. “É um simbolismo, é aquele momento que você realmente entra pra família de bombeiros da corporação, ele é colocado por uma pessoa de alta patente. Esse capacete é o que a gente vai utilizar até o resto da nossa vida de bombeiro em todos os aniversários, celebrações de grande porte, enterros, o capacete vai ser sempre aquele”, explica.

Primeiro estrangeiro da corporação e encanto pela cidade portuguesa


Antes da decisão de se tornar bombeiro voluntário em Portugal, Cyrus Soltani Manjaterra nunca havia viajado para o país e se apaixonou por Torres Vedras, onde reside. Toda a pesquisa realizada antes de se definir onde trabalharia, que envolveu não apenas características do quartel, mas também da região, se mostrou bem realizada e o mogimiriano desfruta de uma localização privilegiada. 

Na corporação, ainda tem a curiosidade especial de ser o primeiro estrangeiro a trabalhar no quartel, algo valorizado pelos companheiros de trabalho, compostos basicamente por pessoas que já se conhecem há muitos anos por Torres Vedras se tratar de uma cidade pequena. “Quando comecei meu curso, o pessoal ficou muito feliz, achavam muito interessante, vamos ter agora um estrangeiro, um brasileiro ainda por cima na turma”, salienta.  

Pertencente ao distrito de Lisboa, ficando a cerca de 30 minutos de carro da capital portuguesa, a cidade de Torres Vedras tem cerca de 25 mil habitantes. Já o conselho de Torres Vedras, que envolve outras pequenas cidades, aldeias e vilarejos, conta com aproximadamente 85 mil habitantes. “É uma cidade interiorana, mas que tem desde uma área montanhosa muito grande, cheia de trilhas, como uma costa de praia maravilhosa”, exalta Cyrus, que observou que, no momento mais crítico de pandemia, os moradores não podiam sair do conselho, o que não era um problema pela região contar com muitos atrativos. 

“É uma cidade pequena, mas que tem absolutamente tudo, desde todos os grandes supermercados, shopping center, é uma região muito dinâmica, muito bonita, é uma cidade com um história dentro de Portugal extremamente grande, aonde eles conseguiram segurar as invasões napoleônicas. Napoleão só conseguiu chegar até essa cidade porque foi aqui que os portugueses junto com os ingleses conseguiram impedir a invasão francesa, então temos um castelo, vários fortes, são da época napoleônica”, destaca.
Como brasileiro, Cyrus sentiu-se muito bem recebido e destacou a paciência dos moradores para explicar questões relacionadas às práticas locais e também nos bombeiros para se certificar que estava entendendo bem o explicado no curso, em função da forma de falar dos portugueses ser diferente.

Tão bem adaptado e apreciando o hobby de viajar por Portugal para desfrutar de inúmeras cidades, pretende seguir a vida em Torres Vedras e se aposentar na corporação. Na próxima terça-feira, completa 31 anos e brinca estar velho para uma nova mudança de quartel. Curiosamente, na última terça-feira, completou 11 anos de atuação como bombeiro, pois começou a trabalhar uma semana antes de atingir 20 anos em uma espécie de “autopresente” de aniversário antecipado. 

BRASILEIROS
Além de nepaleses e indianos, que procuram a cidade para trabalhar na zona rural por ser uma região com muitas vinhas, Torres Vedras tem muitos moradores brasileiros, facilmente reconhecidos pelo sotaque, o que gera situações curiosas nas ocorrências atendidas por Cyrus. “Eu lembro de um rapaz que caiu de moto que trabalha nos Correios. Eu tava de estagiário, fui atender ele e ele olhou, assim: agora Torres Vedras tem brasileiro no Bombeiro também? E eu falei, sou o primeiro. Sempre brinco com eles também: você já deve estar acostumado a cair de moto porque no Brasil o que mais tem é queda de moto, eles dão risada”, relata.

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