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Guerra na Ucrânia impacta mercado de fertilizantes no Brasil

A conta da agressão da Rússia à Ucrânia não para de chegar a cidadãos de todo o mundo. Têm sido incontáveis os efeitos desta guerra, que avança enquanto desregula o mercado internacional de matérias-primas essenciais, como o petróleo, cujo preço disparou por causa dos efeitos da invasão.

Infelizmente para os brasileiros, o país deve sentir em breve outros efeitos dessa guerra travada a 11 mil quilômetros de distância. Um dos maiores produtores mundiais de alimentos, o Brasil é extremamente dependente de alguns fertilizantes produzidos pela Rússia e, em menor escala, por Belarus (país vizinho também atingido pelo boicote internacional), essenciais no plantio das mais diversas culturas.

Não bastasse o aumento indiscriminado no preço destes insumos, a guerra pode fazer com que deixem de chegar aos países que se utilizam dele, projetando um cenário sombrio caso o conflito se estenda por muito tempo.

A COMARCA ouviu no empresário Ulisses Girardi, diretor-presidente da Visafértil, empresa tradicional de Mogi Mirim que atua no setor de fertilizantes orgânicos há 30 anos. O empresário mostrou-se bastante preocupado com os desdobramentos do conflito, principalmente se ele se estender por muito tempo. “O que todos esperamos é que o conflito cesse em uma resolução diplomática o mais breve possível e que a escalada de custos produtivos recue, mas, os efeitos da desorganização econômica global que vislumbramos nos últimos dois anos tendem a ter consequências mais duradouras”, projetou.

Ulisses teme um agravamento do cenário de insegurança alimentar em todo o planeta (Foto: Divulgação)

Veja os principais trechos da entrevista:

A guerra na Ucrânia já tem produzido algum efeito prático no mercado de fertilizantes brasileiro?
Para entender os efeitos da invasão russa na Ucrânia é necessário recuar um pouco e olhar a paisagem histórica na qual esse conflito se insere. A emergência da pandemia de Covid-19 desregulou a produção e a logística dos mercados globais, aumentou a demanda por commodities agrícolas e agravou a tendência de alta do preço do barril de petróleo, elevando drasticamente os custos de produção.

Os embargos contra a Rússia e seus aliados tendem a tornar essa situação ainda mais dramática, em função de suas reservas de potássio, rochas fosfáticas e da produção de adubos nitrogenados nesta região. No último ano, o Brasil importou cerca de 84% dos seus fertilizantes solúveis. Desse montante, mais da metade do cloreto de potássio importado era oriundo da Rússia e de Belarus e cerca de um terço do fosfato monoamônico, um quarto da ureia e todo o nitrato de amônia importados pelo Brasil em 2021 eram russos.

Todos esses fatores restringem nosso potencial agrícola e atuam fortemente na inflação dos alimentos que vislumbramos hoje, de modo que se espera um agravamento do cenário de insegurança alimentar que atinge hoje mais de 2 bilhões de pessoas ao redor do globo, sendo 19 milhões delas apenas no Brasil.

O senhor acredita que o nicho de fertilizantes orgânicos pode se beneficiar de alguma forma desta situação? Sua empresa está preparada para absorver uma maior demanda caso esse quadro se cristalize mais adiante?
O que todos esperamos é que o conflito cesse em uma resolução diplomática o mais breve possível e que a escalada de custos produtivos recue, mas os efeitos da desorganização econômica global que vislumbramos nos últimos dois anos tendem a ter consequências mais duradouras.

A conjuntura atual traz vantagens e desvantagens à produção de fertilizantes orgânicos. Por um lado, há um movimento virtuoso de reconhecimento da importância dos adubos orgânicos para práticas de conservação do solo, economia de água, melhoria das características físicas, químicas e biológicas do solo, bem como aumento no aproveitamento de fertilizantes solúveis, quando aplicados junto a substâncias ricas em carbono orgânico. Observamos uma tendência crescente desta demanda em nossas três décadas de trabalho.

Na contramão deste processo, existem limitações cada vez maiores ao acesso a matérias-primas de qualidade, seja por escassez de produtos frente à demanda ou por encarecimento de frete e restrições da legislação ambiental. Frente a estes desafios, o Grupo Visafértil tem investido, com sucesso, em novas soluções tecnológicas para aumentar a eficiência de nossos fertilizantes orgânicos e condicionadores de solo, o que resultou em novos produtos com dosagens e custos de aplicação reduzidos para obtenção de resultados ótimos a campo.

O fertilizante orgânico tem propriedades para substituir, por exemplo, o potássio?
O potássio, assim como qualquer dos nutrientes essenciais às plantas, como o nitrogênio, o fósforo, cálcio, enxofre, magnésio, entre outros, são insubstituíveis. Entretanto, existem várias fontes possíveis para se obter estes nutrientes.

A crise atual é no fornecimento de fertilizantes solúveis, ou seja, das formas minerais destes nutrientes que passaram por processos industriais para aumentar sua disponibilidade para as plantas e facilitar o manejo. Entretanto, é possível e, mesmo ecologicamente, mais sustentável obter esses nutrientes de fontes orgânicas.

Uma das técnicas basilares na produção de fertilizantes orgânicos é a compostagem de resíduos agroindustriais ricos em nutrientes, um processo no qual, mediante o controle de umidade, temperatura, oxigenação e acidez, se promove a atividade de microrganismos que decompõem materiais orgânicos nutritivos e quimicamente complexos até formas mais simples e disponíveis para o aproveitamento na agricultura.

Assim, reciclamos nutrientes de resíduos que, de outra forma, seriam desperdiçados e gerariam altos custos financeiros e ecológicos se dispensados em aterros, ao mesmo tempo que obtemos um produto energeticamente pouco custoso e pronto para uso na agricultura orgânica, juntamente com fertilizantes minerais, para aumentar sua eficiência.

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