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Por seletivas no MMEC, garotos de Pernambuco pagaram até R$ 1,5 mil

Diego Ortiz

Com o sonho de conquistar um espaço no futebol profissional, dezenas de garotos de Pernambuco aceitaram pagar R$ 1,5 mil para a Soccer Quality Eventos Esportivos, do olheiro Thiago Bernardi de Oliveira, para quatro dias de avaliações no Mogi Mirim, com uma viagem de ônibus que buscaria garotos de diferentes cidades. A esperança de ter uma chance no Mogi Mirim motivou vaquinhas, venda de produtos e até de cabras.

O pagamento podia ser parcelado em três vezes, uma de R$ 100, outra de R$ 400 e a terceira de R$ 1 mil. A alimentação no ônibus, na ida e volta não estava incluída no valor. O ônibus sairia na última quinta-feira, 10, de Pernambuco, passando por diversas cidades, para chegar domingo, 13, em Mogi, mas os pais desistiram da viagem após terem se aprofundado sobre a real situação do clube e conversado com o gestor de futebol das categorias sub-20 e profissional, Wilson Matos, contrário à cobrança por seletivas.

Iolanda Gomes, mãe de Davi, de 17 anos, que esperava passar na categoria sub-17, já havia pagado R$ 1,5 mil. “Eu fiquei com um pé atrás porque um treinador do meu filho disse: alguma coisa está errada. Ninguém pede esse valor, mas como eu não queria estragar o sonho do meu filho, fiz uma campanha, arrecadei esse dinheiro todinho e paguei em três vezes”, revelou.

Carolina Rodrigues, mãe de Ricardo Rodrigues Silva, de 16 anos, já havia feito o pagamento de R$ 500 para avaliação na categoria sub-20. Para obter o recurso, contou com depósitos de amigos e parentes. “Meu filho não dormia, nem comia de tão ansioso. Teve gente que vendeu televisão, alguma coisa sua, teve meninos que venderam seu celular, vários pais fizeram vaquinhas”, contou Carolina.

A família de um garoto de São Lourenço da Mata (PE) vendeu cabras. “Ele tem sonho, a mãe dele vendeu quatro cabras para poder conseguir o restante do dinheiro, fez cotinha, ele saiu vendendo rifa na rua”, revelou Carolina. Ariane Oliveira, mãe de Luiz Júnior, de 17 anos, havia feito o pagamento de uma parcela inicial de R$ 100, e divulgou nas redes sociais para fazer uma vaquinha. “A gente não conseguiu tanto dinheiro, eu não tinha para colocar do meu, eu não estou recebendo direito, está daquele jeito com a pandemia. Eu disse a meu menino, não se preocupe, nem que eu faça um empréstimo, você vai. Porque eu achava que aí em São Paulo ele teria mais oportunidade do que aqui”, declarou.

Desistência
Os pais começaram a desconfiar depois de terem pedido e sido recusada por Thiago uma declaração do Mogi para apresentar na escola dos filhos de que os meninos passariam por uma avaliação no clube, devido aos dias ausentes. Os pais desconfiaram se os atletas realmente seriam avaliados e procuraram Wilson Matos, que afirmou que nenhuma avaliação ocorreria e nem cobrava por seletivas. Uma das mães disse que o nome de Matos estava sendo usado por Thiago, assim como o de Aranha, que atua na gestão de Wilson como selecionador de goleiros, e pediu a Matos para se posicionar.

Wilson, então, fez uma postagem rejeitando e disparando contra a avaliação e a informação chegou ao grupo de pais de jogadores, que desistiram de enviar os filhos e pediram a devolução do dinheiro a Thiago. “É muita mãe chorando. A viagem iria acontecer, isso é fato, nossos filhos iriam sair daqui com ele, passar 2 dias e meio dentro de um ônibus, mas a avaliação não iria acontecer, dentro do Mogi, os atletas não iriam ser aceitos”, desabafou Carolina.

Diante das desistências, a viagem foi cancelada. Tiago alega que o valor de R$ 1,5 mil inclui ida e volta, alojamento e alimentação no clube, colocando que o custo do ônibus é de R$ 42 mil. O valor em outras viagens, partindo da Bahia ou Alagoas, é de R$ 1,4 mil. Disse que sempre coloca de 3 a 4 atletas gratuitos, além dos professores não pagarem. Caso o atleta permaneça para mais dias de avaliação, os custos passam a ser do Mogi. Disse que não era necessária a declaração do clube, por entender que bastaria o contrato de viagem com a ficha de inscrição. Thiago negou ter utilizado os nomes de Wilson ou Aranha.

Com a desistência, o reembolso gerou preocupação até pela necessidade de os pais devolverem o dinheiro para quem ajudou na vaquinha. Thiago explicou que, devido aos limites de transferência, só conseguiria devolver R$ 3 mil por dia e esperava finalizar a devolução até nesta segunda-feira, 14. Pais cobraram transparência para explicar que o Mogi vivenciava um problema e para apresentar uma planilha com datas de devolução.

Outra reclamação foi a de que Thiago os tratava de forma grosseira. Thiago nega grosseria e disse que só soube da posição de Matos quando o gestor fez uma postagem nas redes sociais. Afirmou também que só soube recentemente do problema relacionado à falta dos laudos do estádio. Recusa a ideia de iludir os garotos e disse deixar claro que futebol é difícil para ter sucesso. Thiago disse que faria um boletim de ocorrência contra ameaças recebidas e contra quem denegriu sua imagem, pois disse ter sido apontado como ladrão.

Gratuito
Nas redes sociais, Wilson Matos se comprometeu a realizar uma avaliação oficial gratuita no Nordeste, nos próximos meses, como forma de tentar amenizar os transtornos causados aos garotos e famílias.

 

Luiz e Thiago apontam contrato vigente para realizar seletivas

Na quinta-feira, Luiz Oliveira, cujo mandato como presidente expirou em 31 de dezembro, e Thiago Oliveira, da Soccer Quality, concederam uma entrevista na sala de imprensa do Mogi Mirim, onde mostraram um contrato de parceria, que afirmam ter sido assinado em novembro de 2021, com validade de um ano. Alegando cláusula de confidencialidade, Luiz permitiu à reportagem acessar apenas a primeira folha do contrato. Pela divulgação nas redes sociais, a parceria com a Soccer, que tem sede em São Paulo, foi fechada em outubro. Já o contrato assinado em novembro.

“Quem decide se tem avaliação ou não, não é a WKM, não é a Soccer Quality, não é o Luiz Henrique. O clube tem contratos vigentes e vão ser todos mantidos”, declarou Luiz. O contrato é uma espécie de permissão para a Soccer atuar como representante do Mogi para selecionar jogadores, além de envolver a locação do Vail para os trabalhos. Thiago explicou que, durante a semana dos jogadores na cidade, busca promover amistosos para expor os atletas para análise de outros clubes, mas afirmou ser a prioridade do Mogi.

Na quinta-feira, 10, Luiz Oliveira, cujo mandato como presidente expirou em 31 de dezembro, e Thiago Bernardi de Oliveira, da Soccer Quality, garantiram que as seletivas serão feitas com base em contrato (Foto: Diego Ortiz/A COMARCA)

Segundo Luiz, do valor de R$ 1,5 mil por jogador, não há porcentagem direcionada ao clube, mas a Soccer paga um valor, não fixo, referente a custos como energia, alimentação e protocolos relativos à Covid-19. Embora tenha sido cancelada após desistência dos pais, Thiago pretende realizar seletivas em novas datas com base no contrato.

Questionado por A COMARCA, Wilson Matos disse que, se existe o contrato, irá cobrar transparência na divulgação para definir os objetivos, pois hoje o clube está fora do Paulista Sub-15 e Sub-17 e da Segunda Divisão do Paulista Sub-23, a Bezinha. Em relação a sub-11 e sub-13, observou que a lei proíbe o alojamento de jogadores, o que inviabilizaria seletivas de atletas de cidades distantes. Já em relação ao sub-20, explicou que sua equipe está fechada. Por contrato com a WKM Solutions, o clube tem direito a ter 5 jogadores nos grupos do sub-20 e 5 no sub-23. Neste sentido, as seletivas poderiam servir para preencher essas vagas, mas não há garantia alguma que esses atletas serão utilizados.

Caso seja uma avaliação do sub-15 e sub-17 visando 2023, Wilson disse que poderia aceitar, mas precisaria estar claro para os pais não serem enganados com a expectativa de disputar competições aos quais o clube não irá participar. “Têm que ser transparentes: temos uma avaliação para o Mogi, mas entendendo que não disputaremos nenhum campeonato este ano. Se for dessa forma, não tem problema. Eu me recuso que algum atleta de qualquer idade pague um centavo para fazer uma avaliação no Mogi Mirim, mas se eles têm um contrato vigente, que permite que isso seja feito, isso não vai passar pela minha mão”, frisou, explicando que a avaliação precisa ter intenções reais e não apenas buscar dinheiro.

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