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Autismo: podemos mudar o futuro

O autismo, cujo nome técnico é Transtorno do Espectro do Autismo (TEA), é uma condição de saúde caracterizada por desafios em habilidades sociais, comportamentos repetitivos, fala e comunicação não-verbal; entretanto, terapias adequadas a cada caso podem auxiliar essas pessoas a melhorar sua relação com o mundo.

Não há só um, mas muitos subtipos do transtorno. Tão abrangente que se usa o termo “espectro”, pelos vários níveis de suporte que necessitam. Há desde pessoas com outras doenças e condições associadas, como deficiência intelectual e epilepsia, até pessoas independentes, com vida comum, algumas nem sabem que são autistas, pois jamais tiveram diagnóstico.

As causas do TEA não são totalmente conhecidas, e a pesquisa científica sempre concentrou esforços no estudo da predisposição genética, analisando mutações espontâneas que podem ocorrer no desenvolvimento do feto e a herança genética passada de pais para filhos.

No entanto, já há evidências de que as causas hereditárias explicariam apenas metade do risco de desenvolver TEA. Fatores ambientais que impactam o feto, como estresse, infecções, exposição a substâncias tóxicas, complicações durante a gravidez e desequilíbrios metabólicos teriam o mesmo peso na possibilidade de aparecimento do distúrbio.

Neste sábado, dia 2 de abril, comemora-se o Dia Mundial da Conscientização do Autismo, data criada pela Organização das Nações Unidas (ONU), no ano de 2007, com o objetivo de levar informação à população para reduzir a discriminação e o preconceito contra os indivíduos que apresentam o TEA.

Afinal, indivíduos com TEA podem conquistar seu lugar na sociedade, com aptidões e talentos específicos em determinadas áreas do conhecimento. Muitos podem, por exemplo, concentrar-se fortemente em apenas uma coisa, por isso, alguns tornam-se pianistas ou cantores incríveis.

APOIO DO PODER PÚBLICO
Hoje, porém, nem todas as crianças diagnosticadas com TEA têm acesso garantido às terapias adequadas, o que dificulta ou até inviabiliza a integração junto à sociedade. Por isso, políticas públicas para essa população são tão fundamentais.

Neste sentido, destaca-se o trabalho desenvolvido pelo vereador Orivaldo Aparecido Magalhães (PSDB), que exerce seu 3º mandato na Câmara Municipal de Mogi Mirim. Atualmente, o parlamentar tem cinco projetos em tramitação na casa, todos eles defendendo medidas que possam facilitar ou trazer algum benefício concreto não só para os autistas, mas para os portadores de diversos tipos de deficiência.

Além disso, já conseguiu a aprovação de duas leis específicas para os portadores de TEA. A primeira é a Lei nº 6.128, de 26 de setembro de 2019, instituindo em todo o município a Carteira de Identificação para Pacientes com Autismo. A propositura mais recente, aprovada nesta semana, torna obrigatória a aplicação nas unidades públicas e particulares de um questionário específico, especialmente desenvolvido, o M-Chat (Modified Checklist for Autism in Toddlers, em inglês), para a detecção de sinais precoces do autismo.

Na atual legislatura, Magalhães intensificou a apresentação de projetos visando propiciar melhor qualidade de vida para portadores de deficiência. O Projeto de Lei nº 168 de 2021 recomenda isenção do pagamento de ISSQN aos estabelecimentos de ensino particular de 1º e 2º graus do município, que ofereçam bolsas de estudos para alunos hipossuficientes que contenham alguma deficiência ou que possuam Transtorno do Espectro Autista.

Tramita também o Projeto de Lei nº 14 de 2022, que torna obrigatório o fornecimento de kits de acessibilidade aos alunos com deficiência da rede municipal de ensino. Da mesma forma, o Projeto de Lei nº 15, prevê que seja assegurada para pessoas portadoras de deficiência a disponibilização pelo município, de atendimento psiquiátrico e psicológico voltado para as pessoas que se desdobram no dia a dia para cuidar de forma satisfatória de pessoas portadoras dos diversos tipos de deficiência (familiares e atendentes).

Outro projeto de autoria de Magalhães é o nº 08/2022, que recomenda a criação de um banco municipal de órteses, próteses e meios auxiliares de locomoção voltado para pessoas portadoras de deficiência motora. Como justificativa, Magalhães destaca a importância de uma iniciativa desta envergadura para a melhoria da qualidade de vida de inúmeras pessoas que encontram sérias dificuldades para conseguir atendimento adequado em suas necessidades mais elementares de locomoção e nos efeitos benéficos que essa medida vai proporcionar.

Finalmente, tramita também o Projeto de Lei nº 09/2022, que institui e oficializa a criação do campeonato municipal do atleta portador de deficiência física, uma forma de inclusão social que já é adotada em diversos municípios e que segundo o autor, fará “com que pessoas deficientes possam mostrar toda sua habilidade e sua força de vontade por meio do esporte”.

Você conhece o símbolo do autismo?

O quebra-cabeça colorido representa a complexidade dos transtornos que formam o espectro autista. O logotipo da peça de quebra-cabeça foi usado pela primeira vez em 1963 e foi popularizado pela entidade norte-americana Autism Speaks. Eles o usam para simbolizar a ideia de que pessoas autistas são difíceis de compreender, tal qual um quebra-cabeça.

Já a fita do quebra-cabeça foi adotada em 1999 como o sinal universal da conscientização sobre o autismo. As peças em diferentes cores representam a diversidade de pessoas e famílias que convivem com o TEA. As cores fortes representam a esperança em relação aos tratamentos e ao acolhimento dos portadores pela sociedade em geral. É muito usada para identificar locais onde pessoas com TEA são bem-vindas.

Quebra-cabeças colorido representa o autismo

Em entrevista para A COMARCA, o vereador Magalhães contou os motivos da sua atuação em prol dos autistas. Confira:

A COMARCA: Magalhães, nós temos acompanhado você há alguns anos como empresário e também como vereador na Câmara Municipal de Mogi Mirim e vemos que você vem atuando muito intensamente em prol dos autistas. Por que você adotou essa causa?
Magalhães: Eu tenho um filho autista e, na convivência diária com ele, eu pude adquirir muita experiência na prática e com os profissionais que vêm fazendo todo o acompanhamento dele.

Como é ser pai de um autista?
No meu caso é até tranquilo, porque meu filho foi diagnosticado com um grau leve, mas eu tenho amigos que têm filhos com grau severo e aí é uma grande luta.

Onde você foi buscar informações sobre o autismo?
Bom, quando meu filho foi diagnosticado com autismo, a doutora Karina Fabiana Maganha, que é neuropsicóloga e psicopedagoga, nos indicou os profissionais da área que deveríamos procurar e nos passou também uma série de cuidados que deveríamos ter, também comecei a estudar tudo sobre o assunto, principalmente pela internet.

O que você observou no comportamento de um autista que mais te chamou a sua atenção?
A falta de noção de perigo. Por exemplo, atravessar uma rua sem olhar para os lados. E nesse caso temos um amigo aqui de Mogi Mirim que foi atropelado. Se eles veem animais peçonhentos querem pegar com as mãos, sobem em lugares altos e pulam. Se não monitorar, acidentes acontecem. E todo o cuidado é pouco.

Você é autor de dois projetos já aprovados na Câmara Municipal de Mogi Mirim, um é a Carteirinha de Identificação do Autista e outro, o Questionário M-Chat. Qual importância você viu nesses dois projetos?
A carteirinha vai ser de grande valia pois vai promover a inclusão social, vai facilitar a identificação e também a prioridade no atendimento em serviços públicos e privados, em especial nas áreas de saúde, educação, e assistência social.
E o M-Chat é uma ferramenta que foi desenvolvida nos Estados Unidos e traduzido para o português, é um questionário com 23 perguntas que possibilita o rastreamento e triagem de indicadores do Transtorno do Espectro Autista nas unidades de saúde pública e privada, sendo mais uma ferramenta importantíssima para ajudar a identificar o autismo em crianças de 16 a 30 meses de idade.

Como pai de autista, o que você notou de diferente nos primeiros meses de vida do seu filho?
Até um ano e oito meses de idade, ele tinha um comportamento que parecia normal, mas após os dois anos de idade ele parou de emitir sons de fala, do tipo “má, má, má”. Os meninos brincam com carrinhos empurrando e fazendo sons com a boca, meu filho fazia diferente, ele organizava ou amontoava os mesmos. Eu acredito que a fala é o maior indício para identificar o autismo.

Seu filho está com quantos anos agora?
Dez anos.

O que você foi buscar de apoio para seu filho?
Através de orientação da doutora Karina Maganha, nós buscamos os seguintes profissionais: pediatra, oftalmologista, neuropsicóloga, otorrino, fonoaudióloga e neuropediatra.

E com o passar dos anos, o que você notou de melhoras?
Nós notamos um avanço enorme, melhorou muito a fala, o entendimento das coisas, o desenvolvimento escolar e hoje ele faz muitas perguntas, quer saber de tudo e depois que eu explico vem sempre aquela pergunta “por quê?”.

Você disse que agora está investindo forte nessa questão da divulgação do símbolo do autismo, que é um símbolo bem diferente, um quebra-cabeça todo colorido. Por que você acha isso importante?
Bom, às vezes essas ideias vêm à minha cabeça e eu queria uma forma de chamar a atenção para essa questão do autismo, embora já exista uma lei federal determinando que os comércios, bancos e outros tantos mais têm que colocar o símbolo de prioridade. Há pouco respeito à lei, então eu pensei “por que não fazer um adesivo para os veículos?”. Isso desperta a curiosidade das pessoas em saber o que é aquele quebra-cabeça todo colorido.

Quais são os próximos passos que você vai dar agora?
Vamos fazer entrega dos adesivos para carros nos locais de grande fluxo de veículos a fim de conscientizar a população.

Recentemente, você comentou sobre um centro de treinamento e um lar hotelaria para os autistas, por quê?
Como você pode constatar, o meu filho, durante esses dez anos de vida, teve um grande avanço e isso vai permitir que ele se inclua na sociedade, o que para nós é muito importante. Também quero para todas as outras crianças o mesmo. Tudo isso é muito importante, tendo em vista o número crescente de autistas.
Só para você ter ideia, o Centro de Controle e Prevenção de Doenças apontou que em 2004, a cada 166 pessoas, uma tinha TEA. Em 2012, a cada 88, uma tinha TEA. Em 2018, a cada 59 pessoas, uma tinha TEA. Em 2020, a cada 54 pessoas, uma tinha TEA. Então, com esse número crescente, nós vamos precisar muito de um centro de atendimento ao autista com terapias de aprendizagem, comportamental, ocupacional, fonoaudiologia e tudo aquilo que for necessário para dar um bom suporte para os autistas, ou seja, todas as especialidade que a doutora Karina Maganha nos indicou e foi de grande ajuda para nosso filho.
A questão da hotelaria é muito importante tendo em vista que quando o autista não mais tiver seus familiares para cuidar dele, ele tenha um lugar onde será bem cuidado por profissionais capacitados e receba todo apoio para ter uma boa qualidade de vida.

Quebra-cabeças colorido é o símbolo do autismo; pai de filho autista e engajado na causa, vereador Orivaldo Magalhães trabalha em prol da causa na Câmara Municipal de Mogi Mirim
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