A Comarca

Nossos heróis estão virando pó

A história registra que 11 mogimirianos participaram da Segunda Guerra Mundial. Integraram a Força Expedicionária Brasileira e lutaram na Itália. Nossos “pracinhas”, felizmente, voltaram são e salvos e tiveram seus nomes eternizados no bonito monumento instalado ao lado da Igreja Matriz de São José: tenentes Antonio Domingos Brait, Jorge Passarelli e Manoel de Macedo, e os soldados Higyno Correia, José de Queiroz Telles, Lázaro Damião, Luiz Luciano da Fonseca, Luiz Valeriano, Mauro da Cunha Canto, Sebastião Solidário de Souza e Quirino Furquim de Campos.

A grande placa de bronze nomeando nossos heróis desapareceu. Foi furtada. Teve o mesmo destino da placa do monumento a Rui Barbosa, o grande intelectual, jurista, diplomata, escritor, jornalista e político que dá nome à principal praça de Mogi Mirim. Seu busto continua lá, agora anônimo.

Também foi furtada a placa que identificava o busto do Coronel João Leite na Praça Floriano Peixoto, ou Jardim Velho, deixando pela metade a homenagem da cidade ao ex-vereador e fazendeiro que doou parte de sua fortuna para a construção da Matriz de São José, para as reformas da Igreja do Carmo e da Igreja São Benedito, e para o instituto que abriga idosos na Rua Marciliano e, merecidamente, leva seu nome.

A placa da reforma da Praça Rui Barbosa, instalada junto à fonte luminosa, está toda torta, evidenciando que tentaram arrancá-la, só não se consumando o furto por falta de habilidade ou de força do larápio, ou porque apareceu alguém para atrapalhar seu plano. É questão de tempo até que completem a empreitada.

Duvido que a polícia dedique seus esforços a investigar essa onda de subtração de bens públicos, com tantos outros crimes mais graves a elucidar. Porém, a hipótese mais plausível é que as placas são arrancadas para serem vendidas por quilo em algum ferro-velho a preço de banana (se bem que essa expressão não é mais apropriada, dado o valor atual dos hortifrutis).

Em muitas outras cidades esse tipo de crime também se tornou comum. Invariavelmente, os furtos são praticados por usuários de drogas em busca de dinheiro fácil que lhes garantam algumas pedras de crack ou gramas de cocaína.

Assim, a história de nossos heróis vai virando pó, literalmente.

Esse vazio que fica nos monumentos históricos me remeteu ao episódio envolvendo o grande cronista Lourenço Diaféria, já falecido. No final dos anos 1970, Diaféria – que depois deu uma divertida palestra para os alunos do tradicional Monsenhor Nora – foi preso por três dias e condenado pela ditadura militar com base na Lei de Segurança Nacional.

Seu “crime” foi publicar na Folha de S. Paulo uma crônica exaltando a coragem de um jovem soldado do Exército que morreu ao salvar uma criança que caíra num poço de ariranhas. Escreveu: “Todavia eu digo, com todas as letras: prefiro esse sargento herói ao duque de Caxias. O duque de Caxias é um homem a cavalo reduzido a uma estátua. Aquela espada que o duque ergue ao ar aqui na Praça Princesa Isabel – onde se reúnem os ciganos e as pombas do entardecer – oxidou-se no coração do povo. O povo está cansado de espadas e de cavalos. O povo urina nos heróis de pedestal”.

Por ironia do destino, a Praça Princesa Isabel citada por Diaféria é hoje onde fica a “cracolândia”, em São Paulo, aglomeração de milhares de pessoas em situação de rua, a maioria usuários de drogas, problema que o poder público há anos tenta resolver, sem sucesso.

É verdade que o povo urina nos monumentos, inclusive em Mogi Mirim. Não é porque detestem Rui Barbosa ou Duque de Caxias, o patrono do Exército que Diaféria usou para criticar o regime militar. É porque não têm educação; talvez nem saibam quem foram Duque de Caxias, Rui Barbosa, Coronel João Leite e os pracinhas da FEB. E também porque não há banheiros públicos, que não existem porque os próprios usuários, em vez de conservá-los, os depredam.

Se não respeitam monumentos, os larápios de homenagem tampouco poupam os túmulos, de onde surrupiam cruzes, nomes, números, imagens, qualquer coisa em bronze que possa lhe render algum dinheiro. Profanam sem pudor a última e sagrada morada de nossos entes queridos. Desrespeitam os mortos e os vivos, a quem dão muito mais que prejuízo material.

É revoltante e triste. Não se trata, porém, de uma questão policial simplesmente, mas de um problema social, de saúde pública, que os governos não são capazes de enfrentar com sucesso.

Enquanto isso, encaramos os vazios. Talvez eles tenham de ser preenchidos com placas de gesso e pintadas na cor bronze, sem valor comercial. Gesso feito de pó.

José Francisco Pacóla é jornalista

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