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Ivan Albano faz história: campeão do Race Across América

Diego Ortiz

Considerada uma das mais clássicas e mais difícil prova de longa distância de ciclismo do mundo, o tradicional Race Across América 2022, o Raam, realizado nos Estados Unidos desde 1982, apresenta como campeão o mogimiriano Ivan Albano Júnior, de 48 anos.

Integrante da equipe brasileira Air Relax Brasil, Ivan sagrou-se campeão na categoria de revezamento de quatro atletas, na faixa de 18 a 49 anos, ao lado de Cleyton Souza, Bernardo Kochen, o Bado, e José Graça.

Com 4.887 quilômetros e mais de 52 mil metros de subida acumulada, cruzando os Estados Unidos de leste a oeste, por 12 estados, enfrentando temperaturas extremas e desafios sobre-humanos, completar o Race Across América já é considerada uma façanha.

Além de vencer, Ivan e equipe bateram o recorde brasileiro, concluindo o percurso em 6 dias, 1 hora e 4 minutos, mais de oito horas à frente da equipe vice-campeã, da Alemanha. A velocidade média dos brasileiros foi 35 km/h.

Com a prova iniciada em 18 de junho, os brasileiros chegaram na tarde de 24, enquanto alemães, italianos e norte-americanos na madrugada de 25.

A prova começou em Oceanside, no Estado da Califórnia, banhada pelo Oceano Pacífico, e teve a chegada em Annapolis, capital de Maryland, no Oceano Atlântico. O limite para finalizar a prova, que não tem descanso, era de 12 dias.

Ivan iniciou a preparação no fim de 2021 e fez uma periodização visando ganhar condicionamento durante a competição. “A partir do 2º dia, comecei a sentir cada vez melhor, tanto que praticamente quase todos passaram mal, tiveram algum contratempo, eu graças a Deus não tive nada, pude além de fazer minha parte, cobrir a parte deles, quando estavam mal”, observa Ivan, que sempre esteve confiante na conquista: “Desde que cheguei na Califórnia, falei pra eles que não tinha deixado o trabalho para ir passear”.

Para cobrir os altos custos, Ivan teve patrocínios da Marangoni-Meiser, Elfen, Tradibom, Oral Design, Ótica Líder, Ricardo Rossi e Thiago Toledo, além de uma rifa de uma GoPro ter sido feita com amigos.

Em uma das provas mais icônicas do ciclismo, Ivan e equipe percorreram cerca de 5 mil km cruzando os Estados Unidos de leste a oeste, por 12 estados, enfrentando temperaturas extremas e desafios sobre-humanos (Foto: @velopixx)

COMEMORAÇÃO
Após seis dias dormindo cinco horas no total, ao cruzar a linha de chegada, não era hora de descanso. “Eu queria é comemorar e muito. A gente foi pra um barzinho, tomamos cerveja, depois voltei por Nova York, a gente também foi num barzinho e, aqui esse final de semana, fui naquele Rock Montanha, pessoal fez uma linda homenagem, comemoração não tá parando, a gente tem que comemorar e muito porque esse título é pesado”, festeja.

Albano “congelou” na montanha e encarou medo nas madrugadas

Na missão de fazer história em uma das mais icônicas provas do ciclismo mundial, Ivan Albano encarou situações extremas, perigosas e temerosas. “A gente chegou no Colorado, no ponto mais alto da prova, atingiu quase cinco mil metros de altitude e escalei uma montanha e, depois, descendo, congelei. No final, na hora da troca, lá embaixo da montanha, o pessoal teve que me tirar da bicicleta, porque não conseguia sair, subi, subi, tava com a roupa molhada, aí ‘despenquei’ [desceu rápido], abaixou a temperatura muito rápido”, conta Ivan, que precisou se aquecer no carro de apoio. “Tive que pôr uma roupa seca, tomar um café quente pra tentar voltar ao normal porque tava quase que entrando em hipotermia. Depois de 40 minutos, eu já tava pronto novamente”, relata.

Albano quase sofreu quedas. “Neblina, tempestade, rajada de vento que quase me tiraram da prova, quase sofri acidente, quase caí, animais cruzando a estrada, a gente descendo uma montanha a 90 km/h e passa coelho, aqueles veadinhos, teve uma situação, não no nosso carro, mas bateu no carro de apoio do Cleyton um veadinho na porta e amassou, imagina se pega um ciclista descendo 90 por hora, não sobra muita coisa, é uma prova muito perigosa, já morreu gente. Dá muito medo, você tem o farol da bicicleta e do carro e não vê mais nada, se der problema, a gente tá no meio do nada”, coloca.

Após 6 dias dormindo 5 horas no total, Ivan festejou com champagne e bandeira brasileira na capital de Maryland; em seguida, comemoração com cerveja em bares e descanso adiado: “Eu queria é comemorar e muito” (Foto: Arquivo Pessoal)

Albano vivenciou temores nas madrugadas. “A gente passou numa cidade considerada que tem mais fatos paranormais do mundo, é muito horripilante, tem histórias de pessoas que veem fantasmas, coisa mexendo, umas casas você vê uma luzinha de longe, um cenário, parece aqueles filmes de terror. Eu rezava e pedalei com um terço no bolso, teve uma montanha que escutei mexer na floresta, queria só sair daquela montanha o mais rápido possível”, recorda.

Por outro lado, Ivan se deliciou com os cenários. “As paisagens eram lindas, a gente cruzou um lugar que me marcou bastante, Monument Valley, tem umas formações de rocha e no meio do frio da madrugada, você escuta os índios batendo tambor no meio do nada, você ver o nascer do sol, um pôr do sol num lugar desse é muito marcante”, salienta.

Bicicross, desafios, Ultraman: bagagem foi fator essencial

Uma série de vivências e detalhes de Ivan Albano formaram um conjunto responsável por fazer a diferença no desempenho do mogimiriano. Além de 29 provas de Ironman e 6 de Ultraman completadas, Ivan tem o ciclismo como o ponto forte no triatlo e gosta de desafios como ter pedalado 1 mil km em 20 dias. “Esses desafios que faço ajudam, no final, você tem um gás extra. Toda essa bagagem fica guardada, em determinado momento você vai usar”, frisa.

No início da carreira, Ivan fazia bicicross: “Você pula rampa, faz curva, já vai pegando uma base que depois vai levar pro resto da vida. É uma somatória de todas as provas, treinos, desafios, isso tudo no final faz muita diferença, é a tal da bagagem, para suportar principalmente o psicológico”.

A mentalidade é um dos diferenciais: “você sempre estar positivo, pensar que as coisas vão melhorar, aquele frio vai acabar, aquele vento passar, aquele calor do deserto vai amenizar e assim você vai se enganando até chegar”.

Ivan Albano se preparou para o pior: “A gente atravessou o deserto em 51ºC, descemos montanha congelando, -4ºC, todo tipo de tempestade, vento contra, a favor, eu sabia que as condições iam mudar muito rápido” (Foto: @velopixx)

Rei do Ultraman, Ivan Albano se reinventa: novo desafio já em vista

Qual o auge de Ivan Albano? Depois de ganhar todas as quatro edições que disputou do UB515, o Campeonato Sul-Americano de Ultra Distância, também chamado de Ultraman Brasil, e sentir que havia atingido o auge, o topo da carreira do mogimiriano parece infinito. Em uma nova reinvenção, venceu a prova considerada mais difícil do ciclismo mundial. “Tenho quase 35 anos de carreira, aos 48 anos, acredito estar no auge e tô muito realizado. Acho que agora atingi o auge, se não atingi, estou muito próximo”, analisa.

A sede por superação move Albano em busca de patamares cada vez mais elevados. “A gente sempre está buscando se aprimorar e buscando desafios inimagináveis. Essa prova, olhei no mapa, fiquei assustado. Mas se a gente analisar, é uma superação, o Ironman passa, depois o Ultraman, agora entramos nessa distância e quem sabe num futuro próximo eu não encare fazer isso numa carreira solo”, projeta Ivan, que já pensa em encarar o Race Across América na categoria individual. “Seria o ápice do ápice da minha loucura de tentar buscar uma coisa. Tô bem tendendo a fazer para eu me reinventar cada vez mais”, revela, sem descartar a missão já em 2023.

Um dos motivos responsáveis por se sentir melhor hoje é a maturidade. “Você não consegue ter isso com 20 anos atrás, além de eu ser professor de Educação Física, entender mais de fisiologia”, pontua.

Tetracampeão em 2019 do Ultraman Brasil, em modalidade que envolve três dias e 515 km, com 10 de natação, 421 de ciclismo e 84,4 de corrida, Ivan considera o Race Across a prova mais difícil da carreira. “Tem que estar muito bem psicologicamente, além da quilometragem, Mogi Mirim a Brasília tem 1 mil km, é 5 vezes ir pra Brasília. A gente cruzou mais de 355 cidades, além de pegar deserto 51 graus, frio, calor, privado de sono, comendo mal. Nunca tinha varado a madrugada pedalando”, descreve.

Após pedalar, Ivan ia descansar e repor energia para voltar à prova: “Tem que comer o que tem no carro, gel de carboidrato, barra de proteína, pão, Cup Noodles, esquenta um macarrão, joga água quente, já come” (Foto: Arquivo Pessoal)

REVEZAMENTO
A equipe havia planejado cada atleta pedalar 40 minutos, mas os imprevistos alteraram o programado. “O Bado começou a passar mal, vomitar, aí a gente tinha que cobrir, teve etapas que eu pedalei mais de 3 horas, subi montanha de 1 hora e 40 sozinho, depois descansava 20, já entrava de novo pra cobrir outro atleta que tava com dor nas costas”, rememora Ivan, que ficava sempre alerta. “Você tava deitado, que era programado para estar uma hora descansando, tinha hora que descansava 40, o staff chega: ‘vai ter que entrar de novo’. Tem que tirar força da onde não tem, você vai ficando cada vez mais forte no lado mental”, pondera.

O descanso era em uma “cama” improvisada. “O carro tinha uma caminha que compraram pra mim, tipo um colchão grande, que era até de cachorro, estenderam, abaixaram o banco e ali eu ficava, esticava minhas pernas”, explica.

Nas Montanhas Apalaches, Ivan encarou um dos momentos mais difíceis: “Tive que fazer uma escalada, subindo uma hora e 40 sem parar, como eu era a pessoa que subia um pouquinho melhor, toda montanha, tinha que fazer esse trabalho”.

Devido ao GPS, era possível saber a localização dos adversários. A equipe alemã largou na frente da brasileira, que logo fez a ultrapassagem e não deixou mais a liderança. “Tentamos abrir o máximo. A hora que a gente começou a ter a problema com os atletas passando mal, eles chegaram a estar 30 minutos atrás da gente, deram uma encostada, mas daí fizemos uma madrugada muito boa e abrimos. Só na madrugada, a gente abriu mais de uma hora e meia”, enfatiza.

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